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Quando o INTER venceu o Mundial de Clubes em 2006 tive um pensamento automático: nosso problema era falta de dinheiro, agora está resolvido! Ilusão ou talvez devaneio de neófito.

O dinheiro nunca foi a solução, mas seria a raiz dos nossos problemas. Uma espécie de maldição. De 2005 a 2010 vivemos um quinquênio de muitas conquistas e o sucesso mascara melhor do que qualquer pintura as falhas estruturais que foram nos levar ao rebaixamento pouco mais de 5 anos depois. Em uma década fomos do olimpo ao hades. Ainda sem entender os motivos. Mas sempre esteve claro: coragem, competência, confiança e humildade. Estes são os quatro pilares que, quando sobram ou faltam, fazem de uma equipe entrar pra história ou pelo ralo… respectivamente.

Divagando e delirando em alvi-rubro lembrei daquele dia que emulei o Paulo Santana. Para ser bem recepcionado no inferno que, todos sabemos, é vermelho, hoje destilo minha alma melancólica pela ótica de um David Coimbra… colorado! O Davi Lisboa!

 

A morte do futebol que conhecíamos — e esse enterro em branco e vermelho

O Internacional sofreu ontem uma derrota maravilhosa para o Flamengo. Deliciosa para quem assiste de fora, mas letal para quem ainda sonha em lembrar o futebol como coisa visceral, feita de raça, de invenção, de sangue e calor humano.

No gramado do Beira-Rio, aquele 2 a 0 não foi só um placar. Foi um atestado. O Inter ofereceu ao Flamengo uma passagem privilegiada para os quartos de final, como se dissesse: “Podem entrar, vocês têm mais dinheiro, mais técnica, mais tudo. Inclusive, levem nossas cinzas com vocês.” E aquelas cinzas? Circulavam em forma de papéis picados que caíram do céu como confissão. Não era celebração: era o enterro político de um clube que já foi fenômeno, que brilhou mundo afora, e hoje se engasga com o próprio desânimo.

A exemplo do que acontece em Lost, nos aferramos à chama morta — acreditamos estar vivos, segurando o cabo do remo, negando que o barco afundou. Mas a verdade é que o futebol dos pampas não mais existe como conhecíamos. A força econômica virou tsunami, e quando se cruzam gigolôs rubro-negros com patriotas gaúchos, quem morre é o que resta da autoestima, da bravura, da aura.

Filipe Luís – que lá estava, com toda verve tática e aquela postura de quem comeu e ainda come futebol – classificou o Flamengo como um “jogo completo”. E talvez seja esse o maior pecado dos nossos: achar que o jogo completo é sinônimo de totalidade, de supremacia. Não é. É o fim do improviso, da coragem, do trato áspero com a bola.

E assim se enterra o gaúcho que pensava poder reescrever o jogo, derrubar impérios, reavivar a Faixa Colorada. Foi punido pelo próprio técnico, pela falta de criatividade, pela mediocridade do meio de campo e pela apatia no ataque. Mas o corpo ainda está quente, e a torcida ainda pulsa, lateja. Então resta contar contos em volta do caixão, histórias curtidas à espera de um ressurgimento.

É nessa melancolia que nasce meu conto, meio Coimbra, meio triste — contando que amanhã pode ser diferente. Que talvez entre “papéis cortados” e “cinzas espalhadas”, encontre novamente o farol de um futebol que, moribundo, insiste em piscar.

E quando o caixão estiver fechado, nós ainda estaremos lá fora, batendo com os punhos, gritando “acordem”, como se ainda fossem capazes de ressuscitar esse titã adormecido — crendo, contra todas as evidências, que ele esteja apenas dormindo.

 

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