
O Time do Fuss Ball de Porto Alegre
1912: A Saga dos Rivais Esquecidos
Enquanto hoje o Classico GreNal é uma das maiores rivalidades do Mundo, lá no Inicio, não era nem garantido que ambos iriam sobreviver, muito menos chegarem onde chegaram. Num Universo paralelo poderíamos em vez de Inter e Grêmio estarmos torcendo por Fuss-Ball e Frisch Auf por exemplo. Porto Alegre tinha vários clubes naqueles anos, mas a maioria não sobreviveu o tempo.
Se as velhas figueiras e os eucaliptos de Porto Alegre pudessem falar, eles contariam histórias de tardes épicas disputadas por camisas que o tempo apagou. No alvorecer do século XX, quando o futebol ainda engatinhava pelas ruas de pedra e campos de terra batida da capital, o Internacional e o Grêmio não reinavam sozinhos. Havia uma constelação de clubes pioneiros, formados por imigrantes, operários, ginastas e sonhadores, que dividiam as várzeas da cidade e travavam duelos memoráveis antes de serem engolidos pelas tempestades da história e pelas crises financeiras.
Dentre os mais imponentes dessa era dourada estava o Fussball Club Porto Alegre. Nascido no exato e cabalístico dia 15 de setembro de 1903 — a mesma data de fundação do Grêmio —, o clube surgiu da paixão dos ciclistas da sociedade Radfahrer Verein Blitz. Vestindo originalmente o preto e o branco (e mais tarde o verde e branco), o Fussball era um colosso da colônia alemã e chegou a erguer o maior estádio da cidade na Chácara das Camélias. Ao seu lado, rugia outro esquadrão de sotaque germânico: o Frisch Auf (Fussball Mannschaft Frisch Auf). Fundado em maio de 1909 pelo lendário Georg Black como um braço da SOGIPA, o time entrava em campo ostentando um belo uniforme listrado em vermelho, preto e branco. Ambos os clubes, no entanto, compartilhariam um destino trágico: com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e o forte sentimento antialemão que tomou as ruas, seus jogadores passaram a ser hostilizados. O Frisch Auf sucumbiu às pressões e fechou as portas em 1917, enquanto o Fussball abrasileirou o nome para Foot-Ball Club, resistindo bravamente até as dívidas encerrarem sua jornada em 1944.
Longe dos salões da elite imigrante, nos arrabaldes e bairros mais populares, pulsava o sangue de outras agremiações destemidas. Do bairro Partenon surgiu, em agosto de 1909, o Sport Club Nacional. Com sua camisa alvinegra, o Nacional teve uma vida meteórica e intensa. Foi um dos fundadores da primeira liga da cidade em 1910, mas acabou entrando para a história colorada pelo lado doloroso, sendo a vítima da lendária goleada de 16 a 0 em 1912, encerrando suas atividades pouco depois. Com o mesmo espírito efêmero nasceu o Sport Club Colombo, fundado em setembro de 1910. O Colombo era um time valente que mediu forças contra o Inter no ano do primeiro título em 1913, mas, como tantas associações da época, não resistiu às dificuldades do amadorismo, desaparecendo dos gramados por volta de 1916.
Fechando esse quinteto de lendas esquecidas estava o glorioso Grêmio Foot-Ball 7 de Setembro. Batizado com o fervor patriótico da República, o 7 de Setembro foi uma das pedras fundamentais da organização do futebol gaúcho, ajudando a fundar a Liga de Foot-Ball Porto-Alegrense em 1910. Era um adversário duro, capaz de impor respeito na Várzea da Redenção, mas que frequentemente esbarrava nas infindáveis disputas políticas e dissidências que rachavam os campeonatos da época. Hoje, o Fussball, o Frisch Auf, o Nacional, o Colombo e o 7 de Setembro não entram mais em campo, mas vivem eternamente nas velhas súmulas e na memória de uma Porto Alegre romântica, onde cada bairro tinha seu próprio esquadrão pronto para desafiar os gigantes.

O Time do Frisch Auf
As Raízes de um Povo, a Nova Casa e a Goleada Histórica
Em 1912, caminhar por Porto Alegre era ouvir uma sinfonia de sotaques. O Rio Grande do Sul vivia o auge de sua miscigenação. A base da população gaúcha, formada por indígenas, luso-brasileiros (descendentes de portugueses e açorianos) e afro-brasileiros, misturava-se intensamente com as levas de imigrantes europeus que não paravam de chegar. Alemães, italianos, poloneses e espanhóis transformavam a arquitetura, o comércio e os costumes da capital.
No entanto, essa mistura cultural não se refletia nos campos de futebol. Clubes como o Grêmio e o Fuss-Ball eram agremiações fechadas, restritas quase que exclusivamente aos “teuto-brasileiros” (descendentes de alemães) e à alta sociedade. Foi exatamente contra essa barreira invisível que o Internacional se consolidou.
O DNA do “Clube do Povo”
Enquanto os rivais da capital exigiam sobrenomes europeus específicos ou origens aristocráticas, o Internacional abria as portas. O Inter de 1912 era o verdadeiro reflexo da rua porto-alegrense: luso-brasileiros, filhos de italianos, brasileiros de todas as partes (como os próprios fundadores paulistas) e, aos poucos, as camadas mais populares da cidade. O Internacional não perguntava de onde o jogador vinha, mas sim se ele queria jogar bola. Essa diversidade étnica e social foi o que forjou a identidade inquebrável do “Clube do Povo”.
Em Campo: O Vice-Campeonato e o 16 a 0
Após romper com a antiga liga por divergências de arbitragem em 1911, o Inter ajudou a fundar a AFPA (Associação de Foot-Ball Porto-Alegrense) e fez uma campanha avassaladora no Citadino de 1912. O time terminou como vice-campeão, perdendo o título apenas para o Grêmio, mas o ano ficou marcado por um ataque impiedoso.
O grande destaque da temporada ocorreu em 11 de agosto, quando o Internacional aplicou uma vitória surreal: 16 a 0 sobre o Nacional-POA. Foi uma demonstração de força técnica e física que provou que a mistura de origens no elenco colorado resultava em um futebol vibrante e ofensivo. O Inter também somou outras vitórias expressivas, como um 7 a 0 sobre o mesmo Nacional e um 4 a 3 emocionante contra o Fussball.
O Horizonte: A Chácara dos Eucaliptos
O ano de 1912 também foi o ano em que a diretoria percebeu que o clube precisava de um lar definitivo. Cansados de dividir o espaço público na Várzea da Redenção, os dirigentes começaram as tratativas para alugar um terreno na Rua José de Alencar, no bairro Azenha. O local, cercado por árvores altas, ficaria conhecido como a Chácara dos Eucaliptos. Embora os jogos oficiais ali só começassem em 1913, foi no final de 1912 que o sonho da casa própria colorada começou a ganhar forma.
Resumo Estatístico de 1912
Ficha Técnica do Ano:
Presidente: Henrique Poppe Leão.
A grande marca: A consolidação do clube como um espaço para todas as etnias e a transição para a Chácara dos Eucaliptos.
Saldo da Temporada: 8 jogos oficiais registrados pelo Citadino, 6 vitórias, 0 empates e 2 derrotas.
Jogos de 1912 (Citadino):
05/05: Inter 7 x 0 Nacional-POA
02/06: Inter 4 x 3 Fussball
23/06: Inter 0 x 6 Grêmio
28/07: Inter 3 x 1 7 de Setembro
11/08: Inter 16 x 0 Nacional-POA (A Maior Goleada)
08/09: Inter 3 x 0 Fussball (W.O.)
15/09: Grêmio 2 x 1 Inter
29/09: Inter 1 x 0 7 de Setembro (W.O.)
FONTES:
As informações apresentadas sobre o ano de 1912 foram cruzadas e extraídas das seguintes fontes de pesquisa histórica e esportiva:
Site Oficial do Sport Club Internacional (internacional.com.br):
Uso: Confirmação da identidade do clube como o “Clube do Povo”, a inclusão de pessoas de diferentes etnias e origens desde a fundação, e os primeiros registros sobre a necessidade de um espaço próprio, culminando na transição para a Chácara dos Eucaliptos.
Blog Colorados Anônimos (Pesquisa Histórica do Inter):
Uso: Consulta das datas precisas e dos placares dos jogos do Campeonato Citadino de 1912 organizados pela AFPA (Associação de Foot-Ball Porto-Alegrense), incluindo a confirmação histórica da goleada de 16 a 0 sobre o Nacional-POA e vitórias por W.O.
Museu do Futebol (museudofutebol.org.br) e RSSSF Brasil:
Uso: Contextualização sobre o amadorismo da época, a formação étnica dos clubes rivais (como o Grêmio e o Fussball, formados predominantemente pela colônia teuto-brasileira) em contraste com a abertura do Internacional.
Campeões do Futebol (campeoesdofutebol.com.br):
Uso: Dados sobre a classificação final do Campeonato Citadino de 1912, confirmando o vice-campeonato do Internacional e o título do Grêmio.
Acervo Histórico de Porto Alegre / Grokipedia (História de Clubes Gaúchos):
Uso: Informações sobre o contexto social da capital em 1912, a demografia de Porto Alegre (influência de luso-brasileiros, indígenas, negros e imigrantes alemães e italianos) e a importância do terreno na Rua José de Alencar (Chácara dos Eucaliptos) para o futuro do clube.
Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul / ClicRBS (Almanaque Gaúcho):
Contribuição: Registros detalhados sobre o impacto da Primeira Guerra Mundial nos clubes de origem alemã em Porto Alegre, detalhando a mudança de nome do Fussball Club para Foot-Ball Club Porto Alegre, os episódios de hostilidade contra os atletas da colônia e a extinção do Frisch Auf em 1917.
RSSSF Brasil (Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation) e Futebol Nacional (futebolnacional.com.br):
Contribuição: Bancos de dados estatísticos que preservam as datas exatas de fundação (como o 15 de setembro de 1903 para o Fussball e o 31 de maio de 1909 para o Frisch Auf), as filiações e as tabelas dos primeiros Campeonatos Citadinos organizados pela antiga LPAF (Liga Porto-Alegrense de Foot-Ball) a partir de 1910.
Memória da SOGIPA (Sociedade de Ginástica Porto Alegre):
Contribuição: Registros históricos sobre a criação do seu departamento de futebol, o Frisch Auf, idealizado por Georg Black, e a confirmação de suas cores originais (vermelho, preto e branco).
Projeto Lume (Repositório Digital da UFRGS) e Pesquisadores Independentes (Blog Colorados Anônimos / História do Futebol):
Contribuição: Mapeamento da curta trajetória de clubes menores dos bairros e arrabaldes, confirmando a fundação do Sport Club Nacional (do Partenon) em agosto de 1909 com camisa alvinegra, a criação do Sport Club Colombo em setembro de 1910, e o papel do Grêmio 7 de Setembro como um dos fundadores da Liga em 1910.
Livros e Enciclopédias de Referência:
“História do Futebol em Porto Alegre” e catálogos do acervo do Museu do Futebol, que documentam a perda dos antigos estádios (como a Chácara das Camélias) e o fim da era romântica do amadorismo na capital gaúcha.
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