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Cristian

Dossier Colorado

Por Cristian June 4, 2026 0 Comentários
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O maior ás do Celeiro. Rei em Roma e Titã em Porto Alegre.

 

O Internacional precisa decidir se o Celeiro de Ases será apenas memória afetiva ou projeto institucional.

Essa talvez seja a discussão mais importante para o futuro do clube hoje. Não porque resolva o próximo jogo, não vamos salvar o mundo em pouco menos de 50 dias de parada para a Copa do Mundo, não porque escale o próximo time, não porque substitua a urgência de ganhar. Mas porque toca numa pergunta maior: que tipo de clube o Inter pretende ser nos próximos dez, vinte ou trinta anos?

Em 2011, Roberto Baggio apresentou à Federação Italiana de Futebol um documento que se tornaria quase mítico: o Rinnovare il Futuro. Eram, segundo os relatos, cerca de 900 páginas dedicadas a uma reforma profunda do futebol italiano, especialmente da formação de jogadores. O documento completo nunca foi divulgado publicamente. O pouco que se conhece vem de reportagens, reconstruções jornalísticas e relatos de quem teve contato parcial com o material.

Mesmo assim, a essência é conhecida. Baggio propunha recolocar a técnica no centro da formação, reduzir a obsessão por força física e tática precoce nas categorias infantis, qualificar treinadores como educadores, organizar um sistema territorial de scouting, criar arquivos digitais com vídeos e dados, aproximar clubes e universidades, padronizar centros de formação e construir uma política de longo prazo.

A Federação Italiana anunciou investimento, ensaiou apoio e depois engavetou o plano. Baggio deixou o cargo em 2013. A Itália, anos depois, seguiria acumulando crises e ausências em Copas do Mundo.

A lição não é que um documento salvaria sozinho o futebol italiano. Nenhum documento faz milagre. A lição é outra: ideias boas morrem quando não viram instituição.

 

Luxemburgo viu antes

Aqui a história fica ainda mais interessante para nós, brasileiros.

Muito antes de “big data”, “análise de desempenho”, “departamento de performance” e “gestão integrada” virarem expressões comuns no futebol, Vanderlei Luxemburgo já trabalhava com parte dessa visão. Nos anos 90, ele falava em tecnologia, preparação física individualizada, comissão multidisciplinar e treinador com visão de manager.

Em 1995, no Roda Viva, apresentou um software de análise tática desenvolvido pela HiCom Comunicação Integrada, com filmagens, scouts e reprodução de jogadas. Computadores pessoais ainda eram raridade em muitas casas brasileiras. Luxemburgo estava tratando informação como vantagem competitiva muito antes de o futebol brasileiro descobrir a expressão “análise de desempenho”.

Ele também tentou ampliar o papel do treinador. Não queria ser apenas o homem da escalação, mas alguém capaz de integrar preparação física, fisiologia, fisioterapia, psicologia, análise de jogo, gestão de grupo e estratégia do clube. Criou o Instituto do Futebol Wanderley Luxemburgo, com cursos, especializações e participação de profissionais de áreas como medicina esportiva, psicologia e marketing.

A diferença entre Baggio e Luxemburgo não parece ser de intuição. É de plataforma.

Baggio recebeu uma função institucional e produziu um plano formal. Luxemburgo implementou suas ideias clube a clube, de forma fragmentada, muitas vezes dependendo da própria força pessoal. Um escreveu um dossiê. O outro tentou transformar o futebol no braço, no campo, na entrevista e no enfrentamento diário com estruturas resistentes.

Os dois esbarraram no mesmo muro: estruturas que toleram inovação como discurso, mas resistem quando ela ameaça virar método.

 

E o Inter com isso?

Tudo.

O Inter não precisa inventar uma vocação. Precisa organizar a vocação que já tem.

O clube carrega no próprio imaginário a ideia de ser popular, inclusivo e formador. O “Celeiro de Ases” não é uma peça de marketing. É uma promessa histórica. Só que promessa histórica, sozinha, não forma jogador. Forma jogador quem tem método, continuidade, governança, investimento e coragem de proteger a base do imediatismo político.

Entre a tradição e a realidade contemporânea, há uma lacuna. O futebol mudou. O mercado mudou. A captação de atletas mudou. O dado entrou no jogo. A ciência entrou no jogo. A pressão por venda precoce aumentou. Clubes de outros centros mapeiam o interior gaúcho, Santa Catarina e Paraná antes que o Inter, muitas vezes, consiga estruturar uma resposta sistemática.

A pergunta, então, é simples: o Inter quer apenas lembrar que foi Celeiro de Ases ou quer voltar a operar como um?

Foi a partir dessa provocação que nasceu o Dossier Colorado: Renovar o Futuro do Celeiro de Ases.

A proposta adapta os sete pilares atribuídos ao plano de Baggio à realidade do Sport Club Internacional, cruzando essa inspiração com a visão pioneira de Luxemburgo para tecnologia, gestão e formação no futebol brasileiro.

O primeiro ponto é recolocar a técnica no centro da base. Criança não é miniatura de profissional. Sub-7, sub-9, sub-11 e sub-13 não deveriam existir para satisfazer vaidade de adulto em torneio de fim de semana. A prioridade deve ser domínio, condução, passe, drible, criatividade, inteligência espacial e prazer em jogar. Tática, força e especialização vêm depois.

O jogador fisicamente precoce não pode ser confundido com talento definitivo. O menino de maturação tardia, habilidoso e criativo, não pode ser descartado porque ainda não ganhou corpo. O futebol gaúcho, com sua tradição de intensidade e disputa, precisa ter ainda mais cuidado para não transformar competitividade em filtro contra o talento.

O segundo ponto é tratar o treinador de base como educador. Quem trabalha com formação não está apenas treinando uma equipe. Está lidando com crianças e adolescentes em desenvolvimento. Precisa conhecer pedagogia, psicologia, comunicação, primeiros socorros emocionais, acompanhamento escolar e formação humana. A licença da CBF pode ser o piso. Mas o Inter precisa buscar o teto.

E o teto passa pelas universidades.

Porto Alegre e o Rio Grande do Sul oferecem um ecossistema raro. UFRGS, PUCRS, UFCSPA, Unisinos, UFSM, UFPel, UPF e outras instituições produzem conhecimento em fisiologia, ciência de dados, psicologia, educação, nutrição, medicina esportiva, gestão e tomada de decisão. O Inter deveria transformar isso em rede permanente.

O ganho não está apenas em trazer uma palestra ou assinar um convênio bonito. Está no encontro improvável entre pessoas que normalmente não se encontrariam: um preparador físico conversando com um pesquisador em neurociência; um analista de desempenho dialogando com um estatístico; um treinador de base ouvindo especialistas em desenvolvimento infantil; um gestor do futebol discutindo governança com pesquisadores da área.

Proximidade gera conversa. Conversa gera ideia. Ideia gera projeto. Projeto gera resultado.

Esse ciclo virtuoso precisa ser provocado pelo clube.

Outro ponto essencial é o scouting territorial. O Inter não pode depender apenas de olheiros informais, indicações eventuais ou vídeos que chegam por mensagem. O clube deveria estruturar distritos permanentes de observação no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, com relatórios padronizados, acompanhamento longitudinal e parcerias com clubes formadores do interior.

Nem todo menino talentoso precisa ser levado imediatamente para Porto Alegre. Mas todo talento relevante precisa entrar no radar. Precisa ser acompanhado. Precisa ter evolução registrada. O Inter precisa saber quem ele é antes que o mercado descubra.

A tecnologia entra como memória institucional. Uma plataforma integrada deveria acompanhar cada atleta da base ao profissional, reunindo avaliações técnicas, indicadores físicos, histórico médico, dados escolares, avaliações psicológicas e vídeos de jogos e treinos. Isso permitiria ao clube identificar padrões: quais regiões revelam mais atletas, quais métodos de treino produzem melhor evolução, quais posições têm maior taxa de promoção, quais perfis exigem atenção especial.

Sem dados, cada gestão recomeça do zero. Sem memória institucional, o clube depende demais de pessoas isoladas. E pessoas saem. O clube fica.

Por isso, o ponto decisivo do Dossier Colorado é governança.

A base não pode ser projeto de uma diretoria. Precisa ser política do clube. Um plano aprovado, documentado, mensurável e protegido contra mudanças eleitorais. Com indicadores públicos ou internos, prestação de contas anual, metas de promoção ao profissional, retenção de talentos, formação de treinadores, cobertura territorial, integração universitária e sustentabilidade financeira.

A proposta também sugere uma lógica circular de financiamento: parte da receita líquida obtida com venda de atletas formados no clube deveria retornar obrigatoriamente para o programa de formação. A base forma, o clube vende, parte do valor volta para formar melhor. Isso não é despesa. É reinvestimento no principal ativo de um clube formador.

O Inter tem história, torcida, camisa, centro de treinamento, capital simbólico e localização privilegiada. Tem universidades ao redor. Tem interior produtivo. Tem identidade popular. Tem tudo para transformar formação em vantagem competitiva real.

Mas precisa transformar saudade em método.

O Celeiro de Ases não precisa de 900 páginas. Precisa de vontade institucional, continuidade e compromisso que não mude a cada eleição.

O resto é execução.

Para ampliar o debate, deixei o Dossier Colorado disponível no GitHub. O material pode ser usado, copiado, compartilhado, adaptado e alterado livremente, desde que a fonte original seja citada, conforme os termos da licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0).

(ACESSE O MATERIAL CLICANDO AQUI)

A ideia não é guardar o documento em uma gaveta. É justamente o contrário.

Se o tema é o futuro do Celeiro de Ases, quanto mais gente puder ler, discutir, melhorar e multiplicar, melhor.

Avante, Colorado!

Vamo! Vamo! INTER!

 

 

 

 

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