1918: O Inimigo Invisível, o Gre-Nal com Faca e a Primeira Derrota da Sequência
Em outubro de 1918, quando o vapor Mercedes aportou no cais do Guaíba trazendo tripulantes febris e prostrados, Porto Alegre não sabia que estava recebendo não apenas os seus passageiros — mas o fim de uma era. A notícia da capitulação alemã e do armistício que encerraria a Grande Guerra ainda não havia chegado com clareza, mas havia algo muito mais urgente e aterrador para se temer do que as trincheiras da Europa: um inimigo microscópico que se espalhava pelo ar dos bondes, das farmácias e das igrejas.
Em poucos dias após o desembarque do Mercedes, em 21 de outubro, os primeiros óbitos pela Gripe Espanhola começaram a ser registrados nos livros da Santa Casa de Misericórdia. O que se seguiu foi um pesadelo sem precedentes: em apenas três meses, estima-se que quase 70 mil pessoas — praticamente metade da população de Porto Alegre (então com cerca de 140 mil habitantes) — contraíram a moléstia. As mortes chegaram a 1.316 óbitos oficiais, mas historiadores acreditam que o número real era ainda maior. Corpos eram recolhidos à noite, pelas calçadas da cidade, por carroções escoltados por policiais e presos, como se a própria Porto Alegre tivesse se transformado em um pesadelo. Velórios foram proibidos. Escolas como o Colégio Anchieta, o Colégio Militar e a própria Escola de Engenharia da UFRGS fecharam as portas e se transformaram em hospitais improvisados. A Farmácia Carvalho, na Rua dos Andradas, formava filas desesperadas de cidadãos buscando remédios gratuitos.
A Chácara dos Eucaliptos silenciou. O futebol parou.
Antes da Tempestade: Um Ano de Agonia e Violência em Campo
Mas retrocedamos. Antes de outubro chegar com a sua sentença de morte, os primeiros nove meses de 1918 tinham sido, dentro das quatro linhas, igualmente turbulentos.
O Internacional estreou o ano confrontando um Campeonato Citadino que prometia ser muito mais difícil do que os cinco anos consecutivos de hegemonia. O rival Cruzeiro de Porto Alegre — um clube popular dos arrabaldes do Azenha, assim como o próprio Inter — havia se fortalecido e apresentava-se como uma força real de contestação ao domínio colorado. Os resultados iniciais mostraram que a sequência de invencibilidade havia chegado ao fim: o Inter sofreu derrotas para o Cruzeiro nas duas rodadas que se enfrentaram, e a taça, ao final da temporada, ficou com o rival.
Contudo, o episódio mais marcante do Campeonato de 1918 aconteceu nos limites do que o futebol deveria suportar. Era a tarde de 4 de agosto de 1918, e o Gre-Nal número 11 da história fervia no Estádio da Baixada, casa do Grêmio. O jogo era válido pelo Campeonato Citadino e a partida carregava a tensão elétrica de dois rivais que se detestavam com a intensidade de quem compete pela alma de uma cidade inteira. Aos 43 minutos do primeiro tempo, com o Grêmio vencendo por 1 a 0 após um gol de pênalti convertido por Garibotti, uma briga generalizada explodiu no gramado — jogadores de ambos os lados se envolveram em confronto físico. Foi nesse momento de caos que Manoel da Costa, torcedor gremista e funcionário da Empresa Telefônica Rio-Grandense, tomou uma decisão que marcaria a história do futebol gaúcho para sempre: invadiu o campo brandindo uma faca e, em meio à confusão, desferiu uma perfurada de aproximadamente 15 centímetros na região do abdômen do atacante colorado Álvaro Ribas, um dos jogadores mais importantes do elenco vermelho e branco. O jogador caiu no gramado banhado em sangue enquanto os companheiros tentavam acudir. Ribas sobreviveu após ser socorrido às pressas ao hospital, mas a gravidade da ferida foi tão severa que ele jamais voltou a jogar futebol. A partida foi imediatamente encerrada. Quando a federação ordenou que os times retornassem para concluir o tempo restante, o Grêmio recusou-se a pisar novamente em campo. O Conselho Superior da liga então declarou o Internacional vencedor por W.O. — mas nenhum ponto na tabela apagaria o peso daquela tarde negra, que entrou para a história como o episódio mais violento da rivalidade Gre-Nal até aquele momento.
O Campeonato de 1918 terminou com o Inter realizando 6 partidas oficiais registradas, encerrando a campanha com 3 vitórias, 0 empates e 3 derrotas. Era o fim da invencibilidade que durava desde 1913. A penta-dinastia havia se encerrado, e um novo rival havia emergido.
Quando outubro chegou e a Gripe Espanhola apagou as luzes da cidade, o Campeonato Gaúcho inaugural — que deveria reunir os campeões regionais, com o Cruzeiro representando Porto Alegre — foi cancelado antes mesmo de começar. O futebol gaúcho só voltaria a respirar normalmente em março de 1919.
Resumo Estatístico de 1918
Ficha Técnica do Ano:
Presidente: Coronel Antonio de Oliveira Maia.
Campeão do Citadino: Esporte Clube Cruzeiro-POA (o Inter ficou fora do pódio pela primeira vez desde 1912).
Grande marco negativo: Fim da sequência invicta de cinco títulos consecutivos (1913-1917) e o chocante episódio do esfaqueamento de Álvaro Ribas no Gre-Nal de agosto.
Grande marco externo: A Gripe Espanhola paralisa Porto Alegre a partir de outubro, cancelando o primeiro Campeonato Gaúcho da história.
Saldo da Temporada do Internacional (Citadino 1918): 6 jogos, 3 vitórias, 0 empates e 3 derrotas.
Jogos Oficiais Registrados do Internacional em 1918:
Cruzeiro-POA 2 x 0 Inter (21/04 — Citadino, 1º turno)
Inter 5 x 3 Grêmio (19/05 — Citadino, 1º turno)
Cruzeiro-POA 3 x 1 Inter (07/07 — Citadino, 2º turno)
Inter 1 x 0 Grêmio (04/08 — Citadino, W.O. após o esfaqueamento)
Inter W.O. x Foot-Ball Club POA (25/08)
Inter 13 x 0 São José-POA (13/09)
FONTES:
1. Portal do Colorado (portaldocolorado.com.br)
Uso no texto: Detalhamento do Gre-Nal nº 11 de 4 de agosto de 1918 — a identidade do agressor Manoel da Costa (funcionário da Empresa Telefônica Rio-Grandense), a profundidade da facada (aprox. 15 cm no abdômen de Álvaro Ribas), o placar parcial de 1 a 0 (gol de pênalti de Garibotti) e a recusa do Grêmio de retornar ao campo após a ordem da liga.
2. Colorados Anônimos (coloradosanonimos.com.br)
Uso no texto: Confirmação de que Álvaro Ribas era um dos principais destaques do Internacional na época e que jamais voltou a jogar futebol em consequência da gravidade dos ferimentos.
3. Ludopédio (ludopedio.org.br) — Enciclopédia do Futebol Brasileiro
Uso no texto: Registros sobre o impacto da Gripe Espanhola no calendário do futebol gaúcho em outubro/novembro de 1918 e a confirmação de que as atividades esportivas só foram retomadas normalmente em março de 1919.
4. Matinal Jornalismo / SciELO / IHGRGS (Instituto Histórico e Geográfico do RS)
Uso no texto: Dados epidemiológicos da Gripe Espanhola em Porto Alegre: o número de 1.316 óbitos oficiais, o total estimado de 70 mil infectados (quase metade da população da época), a chegada da doença pelo vapor Mercedes em 16 de outubro de 1918, a proibição de velórios, a transformação de escolas (Colégio Anchieta, Escola de Engenharia, Colégio Militar) em hospitais improvisados e as filas na Farmácia Carvalho na Rua dos Andradas.
5. Futebol80 (futebol80.com.br) e RSSSF Brasil
Uso no texto: Tabela completa dos jogos do Internacional no Citadino de 1918 com datas e placares exatos, incluindo as derrotas para o Cruzeiro (2×0 em abril e 3×1 em julho), as vitórias sobre o Grêmio (5×3 em maio e W.O. em agosto) e a goleada de 13×0 sobre o São José em setembro.
6. Grokipedia / RSSSF Brasil — Campeonato Citadino de Porto Alegre 1918
Uso no texto: Confirmação do Esporte Clube Cruzeiro-POA como campeão do Citadino de 1918 pela FSRG e o contexto do final de ano com a criação da APAD (Associação Porto Alegrense de Desportos) pelos clubes dissidentes da liga.
7. Livro “História do Campeonato Citadino de Porto Alegre: 1910-1972” (Douglas Rambor, José Luís Tavares Maciel e Julio Bovi Diogo)
Uso no texto: Referência base para o registro oficial dos títulos e campanhas, contextualização do rompimento da sequência invicta do Internacional (1913-1917) e confirmação de que 1918 foi o primeiro ano sem título desde a fundação do ciclo vitorioso.
8. FGF (Federação Gaúcha de Futebol — fgf.com.br)
Uso no texto: Confirmação do cancelamento do primeiro Campeonato Gaúcho da história em 1918 devido à pandemia, com o reconhecimento honorífico concedido em 2018 aos clubes (Brasil de Pelotas, Cruzeiro e 14 de Julho) que haviam se classificado para a disputa que nunca aconteceu.
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