“Foi você quem viajou ou foi o vinho que viajou?”
Essa frase solta, logo no começo, parece sem sentido. Mas calma, que eu vou explicar.
Esses dias, assistindo a um jogo da Copa do Mundo, durante a pausa para hidratação, que eu uso normalmente para desidratação, isto é, fazer xixi, me peguei lembrando de uma passagem do extinto programa Perfil, que passava no SBT num horário em que eu deveria estar dormindo para ir à aula no dia seguinte.
Mas não.
Lá estava eu, vendo uma coisa que eu não deveria estar vendo, sobre coisas que eu nunca tinha tido nem ideia de ter acesso: vinhos. Não só vinhos. Vinhos caros. Vinhos com custos que espantariam qualquer dona de casa, qualquer pai de família e provavelmente qualquer ser humano que já tenha dividido o orçamento entre rancho, aluguel e remédio.
Talvez seja essa a função de certas janelas: mostrar um mundo que a gente não conhece.
Nesse episódio em especial, um senhor de meia idade, meu Deus, hoje eu sou um desses, falava sobre o típico “problema” de gente que experimenta um vinho em determinado lugar, gosta muito, compra uma garrafa igual e, quando abre em casa, percebe que a experiência não chega nem perto daquela primeira vez.
Aí o simpático tiozão gordinho soltou uma frase que impregnou na minha cabeça e saltou uns trinta anos depois, no meio de uma Copa do Mundo:
“Foi você quem viajou ou foi o vinho que viajou?”
A explicação era simples e sofisticada ao mesmo tempo. A diferença podia estar no vinho, alterado pelo transporte, pela temperatura, pelo armazenamento, pela forma como foi servido. Mas também podia estar em você. No contexto. Na paisagem. Na companhia. Na viagem. Na alegria. Na expectativa. Naquele exagero emocional que transforma uma taça honesta em experiência mística.
Isso explica desde vinhos até o fato de a distância a pé entre o Shopping Praia de Belas e o Beira Rio ficar mais curta ou mais comprida dependendo da motivação do jogo e, principalmente, do placar final da partida.
Com vitória, é passeio.
Com derrota, é peregrinação.
E foi aí que a Copa do Mundo me bateu de um jeito estranho.
Porque, vendo certos jogos, eu me perguntei: será que é o futebol da Copa que parece melhor porque eu estou emocionalmente viajando? Ou será que é o futebol que o Inter joga, nas competições em que participa, que anda viajando demais?
A resposta, infelizmente, não é confortável.
A Copa do Mundo tem seus jogos ruins, seus empates modorrentos, suas seleções pragmáticas, seus técnicos medrosos e seus craques desaparecidos. Mas, mesmo quando o jogo é ruim, há uma coisa que costuma chamar atenção: o fundamento básico aparece em outro patamar.
O domínio orientado.
O passe de primeira.
A bola que não espirra.
O zagueiro que sabe o que fazer antes de receber.
O volante que gira o corpo antes da bola chegar.
O lateral que cruza não apenas para a área, mas para alguém.
O atacante que não precisa de três toques para entender a jogada.
A recomposição feita com coordenação, não com desespero.
A simplicidade executada em alta velocidade.
É aí que a comparação machuca.
Porque a gente volta para o calendário do Inter, Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Sul Americana, Gauchão, seja lá qual for a competição da vez, e enxerga um abismo que não deveria ser tão grande. Ninguém está exigindo que todos sejam Modrić, Iniesta, Kroos, Messi ou Zidane. A questão não é essa. A questão é muito mais básica, muito mais terrena, muito mais profissional.
Jogador profissional tem obrigação de melhorar fundamento.
Obrigação.
Não é favor ao clube. Não é detalhe de escolinha. Não é perfumaria de comentarista. Não é preciosismo de torcedor chato que fica reclamando no sofá com o controle remoto na mão.
É a base da profissão.
Um jogador de futebol que não melhora passe, domínio, finalização, posicionamento corporal, tomada de decisão e leitura de jogo está fazendo o equivalente ao bancário que não aprende sistema novo, ao médico que não se atualiza, ao advogado que não lê jurisprudência, ao professor que não prepara aula, ao piloto que não revisa procedimento.
Pode até ter talento. Mas talento, sozinho, é uma desculpa elegante para a estagnação.
E aqui entra uma das verdades mais incômodas do futebol: nascer com talento às vezes é o maior sabotador de potencial que existe.
Porque o talentoso resolve cedo.
Na base, ele dribla dois.
Na categoria sub 17, ele decide.
Na categoria sub 20, ele faz o que os outros não fazem.
A bola obedece. O corpo responde. O treinador elogia. O empresário aparece. A família acredita. A torcida projeta. O clube renova. O salário sobe.
E, de repente, o menino que deveria usar o talento como ponto de partida passa a tratá lo como ponto de chegada.
Só que o futebol adulto é cruel com quem confunde dom com trabalho concluído.
No profissional, todo mundo corre. Todo mundo bate. Todo mundo estuda. Todo mundo sabe fechar espaço. Todo mundo tem vídeo, GPS, analista, nutricionista, preparador físico, scout, drone, dado, mapa de calor e comissão técnica com mais gente que formatura de escola pública.
O talento ainda importa. Mas ele deixa de ser salvo conduto.
Ele vira ingresso.
Só entra no teatro. Não garante aplauso.
E talvez seja isso que mais irrite quando a gente assiste a determinados jogos do Inter. Não é apenas perder. Perder faz parte. O Inter não vai ganhar sempre, por mais que nossa cabeça de torcedor ache que deveria. O problema é perder fazendo mal o que deveria ser bem feito até em treino fechado de terça.
Passe de cinco metros errado.
Domínio que mata a jogada.
Cruzamento sem alvo.
Escanteio que não passa do primeiro pau.
Finalização sem equilíbrio.
Lançamento rifado.
Saída de bola sem saída.
Atacante que espera a bola no pé.
Meio campista que recebe de costas sem saber onde está o marcador.
Zagueiro que trata a bola como ameaça biológica.
E aí não dá para culpar apenas o esquema, o gramado, o calendário, o juiz, a direção, a altitude, a umidade, o Mercúrio retrógrado ou o espírito de 2006.
Há uma parte que é individual.
Há uma parte que é técnica.
Há uma parte que é vergonha profissional mesmo.
Porque fundamento se treina. E se treina todo dia.
Claro que ninguém vai transformar um lateral limitado em Cafu com meia dúzia de repetições. Ninguém vai transformar um centroavante duro em Romário com um cone, duas estacas e um preparador motivado. Mas dá para melhorar. Sempre dá. O futebol é feito de margens. Um domínio melhor economiza meio segundo. Meio segundo abre uma linha de passe. Uma linha de passe evita um chutão. Um chutão evitado mantém uma posse. Uma posse mantida impede uma transição ofensiva do adversário. Uma transição ofensiva impedida talvez salve um campeonato.
O alto rendimento mora nesses detalhes invisíveis.
A Copa do Mundo escancara isso porque coloca a régua lá em cima. A gente vê jogadores que, muitas vezes, nem são gênios, mas são tecnicamente confiáveis. Eles não transformam cada jogada em epifania. Eles só fazem o certo. E fazem o certo rápido. E fazem o certo sob pressão. E fazem o certo cansados. E fazem o certo quando o jogo está 0 a 0, 1 a 0, 2 a 1, com a torcida gritando, com o relógio apertando, com o mundo inteiro olhando.
Essa é a diferença entre o jogador que tem fundamento e o jogador que apenas tem lampejo.
Lampejo engana.
Fundamento sustenta.
O Inter precisa parar de se apaixonar apenas por lampejos. A torcida também. Nós somos culpados nisso. Um drible bonito já nos faz ver um futuro craque. Um gol de fora da área já nos faz montar uma carreira. Uma partida boa já vira tese. Um menino que dá um corte seco já é tratado como patrimônio moral da humanidade colorada.
Aí, quando o tempo passa e o jogador não evolui, a frustração vem como se tivesse havido traição.
Mas, às vezes, não foi traição.
Foi falta de lapidação.
Foi o talento sabotando o trabalho.
Foi o clube se contentando com o quase.
Foi o jogador acreditando cedo demais na própria propaganda.
Foi a torcida confundindo promessa com realidade.
E foi o futebol, esse vinho velho e traiçoeiro, mostrando que nem toda garrafa comprada depois da viagem repete a experiência da primeira taça.
No fim, talvez a pergunta daquele programa antigo continue servindo.
Foi você quem viajou ou foi o vinho que viajou?
No caso da Copa, talvez a gente viaje um pouco, sim. A camisa pesa. O hino mexe. O torneio carrega uma mística que melhora até jogo amarrado. A Copa tem esse poder de transformar lateral simples em documento histórico e chute torto em drama continental.
Mas, no caso do Inter, não dá para colocar tudo na conta da percepção.
Tem fundamento demais sendo negligenciado.
Tem jogador demais vivendo de potencial.
Tem talento demais usado como álibi.
E tem uma torcida grande demais para aceitar que o básico seja tratado como luxo.
O Inter não precisa ter onze gênios. Seria bom, claro. Eu aceitaria sem reclamar. Mas precisa ter onze profissionais tecnicamente responsáveis. Jogadores que respeitem a bola. Que saibam que passe é compromisso. Que domínio é respeito. Que finalização é ofício. Que posicionamento é inteligência. Que treino não é castigo. Que talento não absolve ninguém.
Porque, no futebol sério, talento é só o começo da conversa.
O resto é trabalho.
E quando o trabalho não aparece, meu amigo, não foi você quem viajou.
Foi o vinho que azedou.
Quase todo aspirante a jogador e a maioria dos torcedores caíram na conversa do Romário e do Ronaldo Fenômeno. Além de craques indiscutíveis com a bola, ambos são extremamente inteligentes e têm um dom raro para comunicação. Ambos, mais Romário do que Ronaldo, venderam a ideia de que não treinavam, de que tinham preguiça de treinar, de que aquilo tudo era quase uma travessura divina cometida contra os pobres mortais.
Mas é só pegar qualquer entrevista deles antes de se tornarem os ícones que se tornaram para ver dois homens sérios, humildes, comprometidos e treinando pra caralho, esta última frase deve ser lida com a voz do Romário.
Provavelmente foi storytelling, como falam os entendidos em marketing, primeiro para aumentar a própria aura mística e, segundo, para diminuir a concorrência. Porque os malandros iam achar que resultado de excelência tem atalho.
E talvez essa seja uma das maiores ilusões do nosso futebol. A gente gosta demais da lenda do gênio preguiçoso. Do craque que acorda tarde, treina pouco, come errado, ri da preparação física e, ainda assim, resolve no domingo. É uma história boa demais para não ser mentira. Boa demais porque consola. Boa demais porque absolve. Boa demais porque permite que cada um de nós acredite que existe uma poção mágica escondida em algum lugar entre o dom, a sorte e a malandragem.
Eu acredito friamente que o vício nacional em novelas, comédias e afins induz essa interpretação de que existe uma poção mágica para tudo. A gente acredita que a vida é uma novela da Globo, com muito drama, muita confusão, muita reviravolta e, no fim, uma trilha sonora bonita conduzindo todo mundo para um final feliz.
O spoiler é que a vida não é meritocrática. Ela tem seus preferidos. Ela não recompensa merecimento. Ela recompensa esforço, consistência, repetição, adaptação, inteligência prática e, de vez em quando, uma dose cavalar de sorte.
Mas isso já é papo para outro dia.