1917: A Greve Geral, a Revolta dos Uruguaios e a Glória do Pentacampeonato
No inverno de 1917, Porto Alegre parecia uma panela de pressão prestes a explodir. Enquanto os telegramas nas vitrines dos jornais da Rua da Praia anunciavam o iminente envolvimento do Brasil na Primeira Guerra Mundial após os ataques aos nossos navios mercantes, o próprio solo da capital gaúcha tremia com a eclosão da histórica Greve Geral de Julho. Em poucos dias, a cidade parou completamente: as chaminés das fábricas da Fiateci deixaram de fumegar, os bondes elétricos foram recolhidos às garagens e barricadas improvisadas ergueram-se nas ruas de paralelepípedos, onde operários em greve entravam em choque com a Brigada Militar. Em meio a esse cenário de inquietação política e escassez de alimentos, a população porto-alegrense buscava desesperadamente um respiro, um escape para as angústias do cotidiano.
Esse refúgio encontrava-se aos domingos, cruzando os portões da Chácara dos Eucaliptos. Quando a greve geral arrefeceu em agosto, o futebol provou-se o maior catalisador social da cidade. Públicos extraordinários para a época — variando de 2.000 a mais de 3.000 pessoas — espremiam-se nas arquibancadas de madeira erguidas ao redor do campo da Azenha. O cheiro de pipoca e rapé misturava-se à fumaça dos charutos dos cavalheiros de chapéu de feltro, enquanto operários que haviam protestado nas ruas dias antes agora gritavam lado a lado com os estudantes da Faculdade de Medicina. A massa colorada, em constante crescimento, encontrava no Internacional um símbolo de força e identificação popular.
Fora das quatro linhas, no entanto, o futebol porto-alegrense fervilhava em disputas políticas. Em fevereiro, a Federação Sportiva Rio-Grandense (FSRG) aprovou a polêmica “Lei do Estágio”, uma medida que impunha um longo período de carência para jogadores recém-transferidos de outros clubes, visando frear o início do profissionalismo oculto. Sentindo-se diretamente prejudicado pela nova regra após ter contratado três destacados jogadores uruguaios para o seu elenco, o rival Grêmio rebelou-se contra a federação e desligou-se da competição oficial. Com o rival disputando apenas partidas amistosas ao longo do ano, o Internacional viu o caminho livre para demonstrar uma superioridade avassaladora na tabela oficial do Campeonato Citadino.
Dentro de campo, o esquadrão vermelho e branco comportou-se como uma força da natureza. Sob a maestria de Carlos Kluwe e com o ataque comandado pelo imparável Francisco Vares, o Inter não deu chances aos adversários. A campanha foi um festival de goleadas implacáveis, iniciada com um acachapante 14 a 0 sobre o São José e coroada por um sonoro 11 a 0 sobre o Americano. A caminhada vitoriosa encerrou-se no dia 14 de outubro, quando o Americano preferiu não entrar em campo, consolidando a vitória colorada por W.O. Com o apito final da temporada, o Internacional sagrava-se de forma gloriosa Pentacampeão Citadino de Porto Alegre (1913-1917). Uma dinastia invicta que entrava em definitivo para a história do esporte gaúcho.
Resumo Estatístico de 1917
Ficha Técnica do Ano:
Presidente: Coronel Antonio de Oliveira Maia.
A grande marca: A conquista do Pentacampeonato Citadino Invicto pela FSRG em meio à Greve Geral e ao boicote do Grêmio ao campeonato oficial.
Saldo da Temporada (Citadino): 8 jogos oficiais, 8 vitórias, 0 empates e 0 derrotas (incluindo 1 vitória por W.O.). Pentacampeão Invicto!
Jogos da Campanha do Pentacampeonato (Citadino 1917):
Inter 14 x 0 São José-POA
Inter 1 x 0 Cruzeiro-POA
Inter 3 x 1 Fussball
Inter 11 x 0 Americano-POA
Inter 1 x 0 São José-POA
Inter 2 x 1 Cruzeiro-POA
Inter 3 x 0 Fussball
Inter W.O. x 0 Americano-POA
A Equipe Pentacampeã (Base):
Russomano (G) | 2. Paulo Mariath | 3. Simão | 4. Pery | 5. Carlos Kluwe (Capitão) | 6. Pedro Chaves | 7. Túlio | 8. Galvão | 9. Miller | 10. Fabrício | 11. Francisco Vares.
FONTES:
Historiografia do Movimento Operário Gaúcho (UFRGS / PUCRS):
Uso no texto: Detalhamento da Greve Geral de Julho de 1917 em Porto Alegre, incluindo a paralisação dos bondes elétricos, o fechamento da fábrica Fiateci, as barricadas nas ruas e os conflitos com a Brigada Militar, além do clima de tensão devido à Primeira Guerra Mundial e ao ataque a navios mercantes brasileiros.
Memorial do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense / Memorial da FSRG:
Uso no texto: Registros históricos sobre a aprovação da “Lei do Estágio” em fevereiro de 1917, a contratação de jogadores uruguaios pelo Grêmio, o protesto da diretoria tricolor contra a federação e o subsequente desligamento do campeonato oficial para disputar apenas partidas amistosas naquele ano.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (Jornais A Federação e Correio do Povo de 1917):
Uso no texto: Crônicas esportivas da época que documentavam o comportamento do público nos Eucaliptos após o fim da greve em agosto, registrando estimativas de público de 2.000 a mais de 3.000 pessoas e descrevendo a atmosfera social (vestimentas, fumo, lanches e a presença de estudantes e operários).
Futebol80 (futebol80.com.br) e RSSSF Brasil:
Uso no texto: Banco de dados que forneceu as datas exatas e placares precisos de todas as partidas oficiais do Internacional no Citadino de 1917 (como os 14 a 0 no São José, 11 a 0 no Americano e a confirmação do título por W.O. em 14 de outubro), além do cálculo final da campanha de 8 jogos e 8 vitórias.
Acervo Histórico do Sport Club Internacional:
Uso no texto: Fichas técnicas dos jogadores do Pentacampeonato (1913-1917), confirmando a escalação-base campeã liderada pelo capitão Carlos Kluwe e a consolidação do alçapão da Azenha.
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