Se analisarmos o futebol a partir dos termos financeiros e econômicos que imperam nos últimos anos, perceberemos uma dificuldade enorme pra qualquer um que quiser investir nesse ramo: é muito difícil identificar onde está o valor.
Quando falamos de vender minério ou soja, o valor é cristalino. A transferência de valor econômico para valor financeiro é muito fácil de fazer, tanto que milhares de operadores fazem isso todos os dias e os preços são amplamente conhecidos. Mas daí queremos investir no futebol, e o que exatamente determina o valor de um jogador? A percepção de que ele é bom, que melhora o time, que o preço pago por ele é adequado pro quanto ele pode entregar em campo? E como saber que ele é bom? Cada um acha uma coisa. E ainda espera-se que apareça alguém disposto a pagar o valor que se imagina que ele possa valer.
Por isso que penso que investir em futebol pensando em obter retorno lucrativo é uma insanidade. Não há promessa nenhuma de rentabilidade. Os riscos envolvidos são altíssimos. Penso que só existem dois motivos pra que esse bando de SAFs e milionários decidam investir no esporte: lavagem de dinheiro ou paixão irracional.
De um jeito ou de outro, essa injeção violenta de valores que ocorreram de três anos pra cá trouxe, pra além da tal profissionalização do futebol, a inflação no mercado de transações. Hoje em dia, por exemplo, um volante médio que o Internacional tentou contratar, Jean Lucas, saiu do Santos pro Bahia custando o mesmo ou mais que nós pagamos pelo Borré, que veio com status de craque direto da Europa. E hoje ele é reserva do Bahia. Tanto que todos os clubes estão empacados com jogadores de nível muito próximo, e a maior parte dos clubes está empatado (ou quase) em pontos no Brasileirão.
Como já disseram os ex-presidentes do Inter numa série de entrevistas por aí, antigamente o presidente era mantenedor do clube. Terminava o ano, e ele assinava um cheque para cobrir o déficit do exercício. Agora os valores ultrapassam os bolsos dos mecenas e os bancos nos cobram horrores pra sustentar os erros de análise que cometemos. Não temos margem para errar, e erramos.
Estamos numa corrida contra o tempo. Precisamos começar a acertar antes que o crédito acabe. Precisamos gerar valor o suficiente que se transforme em gols e vitórias, pra além de revender ou repassar as tranqueiras, e que isso seja sustentável pra além da percepção de uma pessoa ou outra.
Qualquer entrevista do Abel me tranquiliza um pouco. Ontem na Grenal ele falou coisas sérias, preocupantes, mas com o tom de quem reconhece o peso, e corre atrás. Sinto que agora, com a presença dele, pelo menos temos alguém mais próximo da percepção de valor aguçada. Assim como era o Fernando Carvalho, que esses dias deu uma entrevista muito boa pro Charla Podcast, e demonstrou como usou dessa percepção nos seus tempos áureos no colorado.
Entendo que essa janela de meio de ano será vital para o restante da nossa temporada e da próxima também. Temos que fazer boas substituições em peças caras e fracas do nosso elenco, e de preferência, trazer bons reforços. Pra mim, deveriam sair: Borré, Thiago Maia, Tabata, Clayton Sampaio, Richard, Alan Rodríguez. Isso independente de chegarem boas propostas ou não. E para chegadas, deveríamos trazer: um zagueiro, um segundo volante titular, um primeiro volante reserva, um centroavante titular. Opcionais: um goleiro, caso Rochet saia, e um atacante de lado de campo, caso o recém chegado Kaiky não se prove um bom jogador.
São movimentos difíceis, o mercado está inflacionado, mas é o que dizem: se o ruim está no elenco, uma hora vai jogar. As peças ruins tem que sair logo, e boas reposições nem sempre precisam ser as mais óbvias. Conseguimos encontrar bons jogadores, como foi esse ano com Villagra e Matheus Bahia. Torcerei que essa parada da Copa do Mundo seja boa para o Internacional.