No último mês, os furos no casco do barco colorado começaram a verter água. A necessidade dos 200 milhões extras para a continuidade das atividades entre o final deste ano e o final de 2027, anunciada pela consultoria, como eu falei aqui meses atrás, ficou bem óbvia pela sequência de problemas dos últimos dias, inclusive com o atraso de pagamentos aos jogadores logo antes do primeiro Grenal da Copa do Brasil.
Parte do aporte veio – 10%, pra ser preciso. Veio através do Sonda, num movimento que tem um quê eleitoreiro pesado, uma vez que o mesmo Sonda bloqueou nossas contas judicialmente 20 dias antes da doação. Mas o que esse movimento indica, pra mim, é um diagnóstico que reflete nosso passado recente e uma possibilidade de futuro.
Fica claro que o Barcellos esteve, durante todo o mandato, longe dos mecenas, e que ficar longe desse dinheiro é extremamente danoso ao Internacional. Não temos receitas que acompanhem o mercado da bola atual e não podemos sobreviver sem uma elite de torcedores aportando no clube. E fica claro também que, talvez, esse caminho se abra de novo com a eleição de um candidato alinhado aos mecenas. Esse é um caminho perigoso, porque mantém o clube insustentável, mas pelo menos é uma alternativa concreta, real. O melhor dos mundos seria um candidato que transicionasse a estrutura atual, que depende dessa fonte de financiamento para a sustentabilidade autônoma de receitas e despesas. Mas daí é utopia da minha parte.
Mas nada dessa discussão de milhões, mecenas, eleições e sustentabilidade faz sentido se o Internacional for rebaixado. Na série B, nossas receitas serão ainda menores do que o patamar atual (que já é baixo, porque este ano não vamos vender ninguém). A dívida, obviamente, vai se manter lá enquanto o clube não pagar, e sem as receitas ela vai rolar (crescendo) ao infinito.
Nesse mês que passou, meu pessimismo explodiu. Eu já estava convicto do nosso rebaixamento. A troca de técnico e a parada da Data Fifa oxigenaram minhas ideias, e, pelo que percebo, também de alguma parte da torcida. Esse foi o movimento correto, e junto com ele eu trago um fato motivador pra quem não está convencido.
Penso que Paulo Pezzolano, por mais bem-intencionado que fosse, não estava pronto pro desafio. A carreira dele é integralmente vivenciada em clubes que não precisavam ganhar. Todos os clubes que ele treinou eram de pequeníssimo porte, exceto pelo Cruzeiro, que naquela situação vivia seu terceiro ano seguido de série B. A experiência dele como técnico era baseada em times que podiam perder à vontade, que podiam dizer “Que pena, hoje não deu, mas estamos bem, quem sabe ganhamos o próximo”, porque não tinham expectativa. E isso prejudicou muito a passagem dele por aqui. Há jogos que não se pode perder, especialmente no Beira-Rio. A fortaleza da história do Internacional é seu retrospecto poderosíssimo em casa e a formação de jogadores de uma região periférica do Brasil. Essa leitura precisa estar na gênese de qualquer plano de jogo pro clube. Pois bem, com essa deficiência de percepção, ele prejudicou muito sua passagem, e nos deixou à beira do precipício.
À parte tudo o que se fala sobre a chance de o Internacional cair, que é bem alta, compartilho aquilo a que eu vou me agarrar pela nossa manutenção na série A: precisamos ganhar cinco jogos, e temos 10 pela frente. Desses 10, exatamente cinco são em casa.
Basta que Eduardo Baptista se oriente pelo simples. Ele precisa perceber que, em casa, não pode tropeçar, ou seja, basta voltarmos a fazer o que sempre fizemos bem, então o colorado poderá se recuperar. São três meses: é tempo pra muita coisa dar errado, mas, tendo essa premissa bem clara na cabeça, sinto que temos chance de escapar. Se voltarmos a inegociar placares em casa, a coisa tem futuro. Quem sabe até possamos arrancar pontos fora de casa, daí a campanha muda completamente. É nisso que estou me fiando para as próximas partidas.