A gente não sabe, mas estamos nos movendo no que parece ser em tempo normal, mas na verdade é um tempo em câmera lenta, extrema câmera lenta, inimaginável para o ser humano.
Tipo um sapo numa panela de água que começa fria e aos pouquinhos vai esquentando: o sapo não sente essa mudança de temperatura e vai ficando, vai ficando. Esses somos nós. Com o passar do tempo, as coisas desaparecem, são apagadas, esquecidas e ninguém nota.
Estamos no ano de 2026, mas imagina se viajássemos para o ano de 2076. Chegando lá, um cara aparece e tu logo começa a conversar com ele sobre futebol. Tu vê que ele é da tua cidade, Porto Alegre, só que nesse distante futuro. E sabemos que um Gaúcho sempre faz essa pergunta quando conhece uma pessoa nova: “Mas tu é Colorado ou Gremista?”. A resposta eu vou te contar depois.
Tu fala para ele sobre a Libertadores que o Inter conquistou em 2006 — ou seja, 70 anos atrás —, fala sobre o time: o Clemer, o Índio, o Fernandão e o Gabiru. Ele te responde: “Eu nunca ouvi falar de nenhum deles, exceto do tal de Gabiru”.
Naquele instante, o teu mundo acabou, a ficha cai, tu te sente só, perdido em um mundo alienígena. Como que um Gaúcho não sabe quem é o Fernandão? Como isso é possível?
Esse processo acontece aos pouquinhos, a gente mal nota. Mas passam-se alguns anos, depois uma década, depois duas; uma geração desaparece, outras nascem, e as memórias se vão. Talvez não a manchete, mas os pequenos detalhes vão desaparecendo. Índio, Clemer e Fernandão se tornam “pequenos detalhes”; a Manchete é Gabiru.
Lembra quando eu disse que a gente não nota esse processo? Pois bem, estou aqui para te avisar que estamos vivendo no meio de um deles. Faltando dois dias para terminar a Copa do Mundo de 2026, o mundo atual, a Geração atual, está no meio do processo de desaparecimento e esquecimento do Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.
Quantas estrelas da seleção brasileira de 1958 você sabe de cor? Pelé, Dida, Zagallo… Eu acho que, para mim, é mais ou menos isso; o resto, ao menos no meu cérebro, foi esquecido ou, pior, nunca foi aprendido. O Tempo fazendo o que o Tempo faz.
Mas não é só com Estrelas … é com qualquer um. Teu bis-Neto vai saber a tua história…ou tu apenas será um nome na arvoré genealógica da família?
Somos testemunhas do início do processo de anulação do Pelé em favor da bola da vez, o Lionel Messi. Não interessa se o Messi merece ou não, porque isso nunca interessou; é simplesmente o tempo fazendo o que o tempo faz. Para quem viu o Pelé jogar como eu — ou melhor, para quem viu o que era o Pelé naquela versão da Terra, numa Era em que redes sociais e internet não existiam —, sabe que o futebol nunca terá outro Pelé. Não só pela qualidade, mas pelo momento: ele foi o primeiro, e só um pode ser o primeiro.
Voltando à conversa com o cara no futuro, eu menciono Pelé, e ele me diz: “Sim, eu já ouvi falar no nome dele, mas não sei muito sobre ele”. Eu explico: “É, tu não conhece o Pelé porque o apagaram para dar espaço para o Lionel Messi”. Ele me olha perplexo e diz: “Lionel quem?”.