Ainda estamos no deserto.
Aguirre como o tão sonhado bom treinador, o time ajeitado, com velocidade, marcação forte e recomposição, a Libertadores ao alcance dos pés, uma gestão inteligente do elenco. Tudo miragem, infelizmente.
Quando se trata de futebol, ainda estamos no deserto. O mesmo deserto que percorremos há quatro anos e que parece intransponível. Melhoramos e muito na gestão do estádio, acho importante ressaltar e parabenizar o André e demais responsáveis, mas isso acaba ficando quase sem valor quando vemos o futebol ruir, novamente.
Aguirre foi demitido corretamente, mas tarde demais, o que só reforça a incoerência de uma nova direção que começou com toda a confiança da torcida, mas que parece repetir os erros e vícios da gestão anterior. Contrataram um técnico no qual não tinham convicção mas que poderia ter dado certo. Começou bem, fez o que tinha que fazer no Gauchão, testou jogadores, formações, táticas e ainda foi campeão. E aí, no segundo jogo da final, se deu o ponto crucial de inflexão em que a nova direção pecou como as outras ao deixar o técnico se perder em decisões equivocadas quanto à gestão do elenco. Ali, naquele segundo GreNal da final, o Inter mostrava os vícios que viriam nos atirar na situação em que estamos agora. Ali já se via a falta de preparo físico, a incapacidade de reter a bola, a falha crônica de posicionamento do time que, por sempre jogar recuado e dar o campo ao adversário, acabava cansado muito cedo nos jogos, em função da distância enorme a percorrer sempre que recuperava a posse de bola. Todos estes problemas já apareciam ali e, bem, eu avisei.
Mas também apareciam virtudes. O time estava entrosando, o ataque funcionava muito bem, nossos laterais rendiam bem e ganhavam confiança jogo a jogo, assim como Dourado, Valdívia e Sasha. Jovens que vinham numa crescente e que só poderiam continuar progredindo junto com o time se, além de corrigir os problemas táticos do time, Aguirre encerrasse a fase de rodízio adequada ao Gauchão e passasse apenas a gerir o melhor time, preservando um ou dois jogadores a cada partida, talvez até três, mas mantendo a base titular a cada jogo. E é aqui que uma direção que entende de futebol e que sabe o que quer tem que interferir. Aguirre precisava (sem saber) de uma direção forte que colocasse um limite na sua teimosia e que visse os vícios do time e cobrasse melhoras efetivas.
O problema é que ainda está para ser provado que temos uma direção competente. Com todo respeito aos que lá estão, Pífero e demais, afirmo sem receio: vocês ainda são “Luigi”. Vocês simplesmente repetiram um erro caro e duro para os colorados, aquele em 2010 quando Roth simplesmente deixou o time numa imensa zona de conforto e abriu mão do Brasileirão por medo de contusão e quetais. Isso só mostra que vocês não aprenderam com o passado, que ainda não sabem o futebol que querem ter no Inter. Por isso contrataram o Aguirre lá no início do ano. Por isso demoraram tanto a tomar providências para evitar a enorme queda de rendimento do time. Por isso vemos jogadores que vem e vão e não compreendemos qual é a lógica por trás de suas contratações.
Façam um exercício de reflexão, por favor. Comecem por sentar, discutir e responder perguntas como:
- Qual o perfil de futebol que vocês querem? Futebol de marcação, com a meta de fazer gol no contra-ataque? Futebol leve, técnico e agressivo?
- Quais as características que um jogador deve ter para se encaixar neste perfil? Quais as virtudes prioritárias? Ritmo de jogo? Preparo físico? Habilidade? Senso tático?
- Qual o perfil de treinador se encaixa nesse perfil de futebol?
- Quais as prioridades, ano a ano, em relação à campeonatos? É disputar os dos segundo semestre ou os do primeiro semestre?
E há mais perguntas, é evidente. O planejamento e as escolhas na hora de contratar jogadores, técnicos e preparadores físicos dependem crucialmente de se ter uma resposta clara para cada uma delas. Sem isso, repito, vocês da direção ainda são “Luigi”.
Erros ocorrem. Tivemos em 2010 e repetimos agora. Ou seja, você pode não aprender com os erros ou pode ser humilde e repensar as coisas.
Minha pergunta é: quando é que vocês da direção vão aprender alguma coisa com erros cometidos?
Estou pra ver e estou torcendo para que aprendam. Mas demitir Aguirre, como Pífero disse, pensando no GreNal já é começar errado, novamente. O GreNal que se exploda. Temos que pensar a longo prazo, temos que ter convicção sobre o caminho a trilhar e assim decidir quem (dentre jogadores e comissão técnica) está apto a trilhá-lo conosco.
Cansei de ver miragens nesse deserto. A cada ano é isso e isso cansa. Não me importo de andar mais um tempo no deserto, desde que saiba finalmente para onde caminhar. É só isso que a torcida do Inter quer e pelo que anseia.
Vamos lá, Pífero, pára, respira e pensa. Capacidade você tem, mas vai ter que usá-la.