Cristian

Entre o Guardanapo e o Abismo

4.4
(13)

A retrospectiva do Spotify trouxe uma surpresa daquelas que dizem mais sobre nós do que gostaríamos de admitir: minha música mais tocada do ano foi “Guardanapo”, da Rainha Musical. Não é sobre ritmo, nem sobre letra — é sobre memória. Sobre a tentativa inconsciente de buscar abrigo naquele 2022 em que o Inter parecia, enfim, ter reencontrado grandeza. Fizemos nossa melhor campanha nos pontos corridos, tínhamos um Mano Menezes humilde no trabalho da casa-mata e sarcástico nas entrevistas – lembrando os melhores dias do agora imortal Vesgo. Vivemos naqueles dias um dos momentos mais competitivos da década e, mesmo assim, ficamos com o “quase”, esse velho conhecido que insiste em dividir morada com nossos sonhos no Beira-Rio.

Naquela época, reclamávamos do Alemão. Hoje temos Borré — e talvez sejamos rebaixados por falta de gols, pela mira torta do colombiano que chegou como promessa de redenção e virou metáfora da temporada: muito esforço, pouca entrega, nenhum desfecho digno.

O desalento é grande. O Inter respira por aparelhos — aparelhos de fé, de nervos, de loucura e de Abelismo, nosso último ofício sagrado. Abelão é o xamã que chega quando já não há lógica, só a esperança irracional que sustenta os sobreviventes.

E como se não bastasse o drama dentro de campo, o fora dele resolveu sangrar também. Em Itapema, o ônibus que levava torcedores do Inter foi atacado covardemente: pedradas, paus, explosões de artefatos, janelas estilhaçadas, gente ferida, desespero correndo pela BR-101 como se fosse mais um lance daqueles que a gente assiste sabendo que vai dar errado. Uma emboscada criminosa, bárbara, sem justificativa possível. Inadmissível. E ainda assim, previsível — porque o futebol brasileiro perdeu qualquer noção de limite, e a violência virou adereço de arquibancada.

No fim das contas, não resta otimismo, nem pessimismo. Só a lucidez amarga de quem já viu esse clube grande demais ser apequenado por dentro.

Foda-se tudo e todos que foderam com o Inter. Que sejam chutados do Beira-Rio no dia 7 de dezembro — todos — depois de erguerem uma estátua do Abelão tomando vinho num chafariz como o da Praça Dante Alighieri, em Caxias do Sul, nos tempos da Festa da Uva.

E que essa estátua fique lá como ficam os heróis condenados: não para celebrar a vitória, mas para lembrar que, mesmo sabendo o desfecho, ainda assim caminhamos até o último passo. Ao lado da estátua do Sóbis carregando o bandeirão pra lembrar que sempre lutaremos. Eles passarão… e a gente? Passarinho? Nada disso! A gente cai – mas cai matando!

Hasta Domingo! Hasta la muerte!

(Já que o espanhol faz sucesso na Padre Cacique)

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