Democracia da Desgraça

O futebol gaúcho tem uma regra recente e não escrita: ninguém passa vergonha sozinho. É um pacto secreto de mediocridade, quase uma irmandade da ruína. Quando um se enrosca nas próprias dívidas, o outro dobra a aposta. Quando um se complica nos bastidores, o rival inventa um vexame novo para equilibrar a balança. É a democracia da desgraça.
De um lado, o clube que celebra um estadual como se fosse uma Champions League. Pois é o único titulo de uma gestão que endividou o clube duas vezes mais, mas o discurso é de conquista histórica. É o velho truque do ilusionista: joga fumaça nos olhos da arquibancada e finge que o coelho saiu inteiro do chapéu, mesmo que a cartola esteja cheia de furos.
Do outro, a epopeia da pedra e do concreto. Promessas de futuro dourado, papéis (que, pelo menos, não são picados… sejamos justos!) que se multiplicam mais rápido que gols em clássico de várzea, e a convicção de que basta acreditar no milagre administrativo. No fim, sobra um labirinto de reuniões e comunicados que não explicam nada — mas servem para alimentar a sensação de que o amanhã será diferente. Spoiler: não será.
E no meio disso, o torcedor. Sempre ele, o sofredor de luxo. Ri, chora, corneta, se indigna — mas domingo está lá outra vez, como quem volta a um amor tóxico. Porque ser torcedor aqui não é escolher, é obedecer. É uma fé que não aceita desistência.
Assim, os dois gigantes seguem a coreografia desengonçada: um passo para frente, dois para trás, e a mão estendida para que o rival não caia sozinho. É uma parceria no infortúnio. Não há heróis, não há vilões — apenas protagonistas de uma tragédia cômica que se repete há décadas.
No fundo, o gaúcho já sabe: o futebol aqui não se mede mais por títulos e vitórias, mas por quem consegue transformar derrota em espetáculo. E nisso, admitamos, estamos ficando imbatíveis.
Me despeço deixando pra vocês os gols do Bolatti pelo INTER pra ver as maravilhas de atacantes estrangeiros de seleção que contratamos. Pelo menos não passo raiva sozinho.
(O Bolatti perto de nossos atacantes parece o Van Basten)