Cristian

A Contabilidade da Paixão

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Faz duas semanas que ando doente – e depois de ler os balanços do Inter, piorei. Mas, antes disso, nessa semana a coisa complicou e tive de ficar em casa uns dias. Como estava sem muita coisa nova para me incomodar – só a patroa e as coisas de sempre, resolvi baixar todos os balanços do Inter disponíveis no site e analisar com calma.

O que vi me deixou triste e preocupado:

o INTER não vai falir… ele já faliu.

Não tecnicamente! O passivo não está a descoberto.
Mas — na essência — sinto que a alma do Clube já vaga por dimensões superiores, como um paciente que está na UTI recebendo cuidados paliativos, respirando por aparelhos ligados no fio da esperança e nos tubos das “receitas extraordinárias”.

E como eu não quero sofrer sozinho, farei vocês verem comigo o que eu vi.

A gestão de um clube do tamanho do Internacional virou uma equação perversa: o futebol exige gastar, mas a estrutura financeira do Inter não aguenta mais um tostão de erro.

E apesar das receitas recordes, o Clube vive um paradoxo:
ganha como grande, gasta como desesperado e administra como amador.

Há mais de uma década.

Este texto é sobre isso: as despesas, as fragilidades e a verdade incômoda de que só existe Internacional pós-2015. Antes disso, os balanços servem para uma coisa só: confundir quem tenta entender o tamanho do buraco.


1. Por que ignorar a contabilidade pré-2015

Se você quer entender o Inter de hoje, delete tudo antes de 2015.
Não foi uma “virada de gestão”. Foi uma mutação contábil.

A partir de 2010 e culminando em 2015, o Inter foi obrigado a entrar no século XXI das normas contábeis. Isso mudou tudo:

  1. IFRS/CPCs (2010 em diante):
    O Clube reavaliou o Beira-Rio e o Imobilizado em valor justo.
    Resultado? Um aditivo de R$ 434,7 milhões no Patrimônio.
    Não é dinheiro novo. É contabilidade. É maquiagem permitida.
  2. ITG 2003 – Direitos de Imagem (2015):
    O Inter passou a reconhecer 100% dos contratos de imagem de atletas como Passivo + Intangível.
    Isso aumentou o balanço de 2014 em R$ 60,1 milhões, sendo R$ 32,6 mi no Passivo Circulante e R$ 27,5 mi no Não Circulante.

Ou seja:
Antes de 2015, o Inter parecia saudável. Depois de 2015, descobrimos o paciente real.


2. 2024: O ano em que o Inter entrou em combustão interna

Ver a DRE de 2024 é como olhar um carro pegando fogo em câmera lenta.

Indicador (R$/Mil) 2024 2023 Variação
Custos Operacionais (404.427) (287.511) +40,6%
Superávit Bruto (94.223) 27.815 Virou déficit

A pergunta é simples:
Como diabos um clube deixa seus custos explodirem 40% em um ano?

A resposta também é simples, triste e previsível:

1. Folha salarial descontrolada

  • Pessoal e Benefícios: R$ 191,5 milhões (+16,9%)
  • Direitos de Imagem: R$ 64,2 milhões (DOBRO de 2023)

Se você acha que o Inter paga pouco para jogar tanta bola… sinto informar: o dinheiro tá indo, só não tá voltando em campo.

2. Amortização de atletas: o Mastercard do desespero

De R$ 48,2 milhões (2023) para R$ 77,7 milhões.
É o preço de capitalizar jogador mediano como se fosse estrela — e depois rezar pra vender.

3. Logística do caos

As enchentes explodiram os custos:

  • Logística: R$ 21,6 milhões
  • Obrigações Legais: R$ 29,3 milhões (rescisões + processos)

No fim, o Inter fez o impossível: transformou três anos de superávit bruto em um déficit bruto de R$ 94,2 milhões.


3. As “Burrices” Gerenciais e o Ciclo de Autossabotagem

O Inter não erra por acidente.
O Inter erra por hábito.

A) A dependência patológica de receitas extraordinárias

Aqui está a doença terminal:

  • 2023: Superávit de R$ 170 milhões graças à LFU (R$ 211,8 milhões).
  • 2024: Déficit de R$ 34,5 milhões só controlado porque vendeu jogador como se fosse liquidação: R$ 178,2 milhões líquidos.

Sem “fatos extraordinários”, o Inter fecha no vermelho todo ano.

E não é opinião.
É matemática.

B) O suicídio financeiro da ausência de hedge

Sim, o Inter negocia em dólar e euro.
Não, o Inter não usa hedge.
Sim, isso é insanidade.

2024 só em perda cambial: R$ 33,6 milhões.
Resultado financeiro total: – R$ 64,1 milhões.

O Inter faz dívida em euro como quem compra fiado no açougue.
E reza para o câmbio não subir.
(Deu errado.)

C) Liquidez no chão — o pulmão colapsou

A DCCL aumentou de R$ 291 milhões para R$ 358,9 milhões em um ano.

Traduzindo:
O Inter deve mais no curto prazo do que tem.
Sempre.
Todo ano.
Sem parar.

É como viver com o cartão estourado e pagar a fatura com o cheque especial.


4. Setembro de 2025: o quadro clínico atual

Os números mais recentes mostram um paciente que continua lutando, mas sem responder ao tratamento:

  • Déficit Acumulado: R$ 239,9 milhões
  • Passivo Circulante: de 610,7 → 715,5 milhões
  • Contas a Pagar: de 51,6 → 89,9 milhões
  • Credores por Venda de Atletas: de 59,6 → 83,7 milhões

Ou seja:
cada venda gera novas dívidas, e cada dívida exige novas vendas.


Conclusão BV

O Inter não está no “limite da falência”.
O Inter está no ciclo da falência.

Ainda respira, mas é respiração assistida — movida por LFU, venda de atletas, renegociação compulsiva e uma fé quase religiosa no “ano que vem”.

O que estes números contam, em silêncio, é simples:

O Inter não morrerá por falta de grandeza.
Mas pode morrer por excesso de burrice.

 

 

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