1914: O Mundo em Guerra, a Cidade Dividida e o Bicampeonato Invicto
Nos frios e úmidos dias de julho e agosto de 1914, os ventos que sopravam do Guaíba pareciam trazer um eco sombrio do outro lado do Atlântico. O mundo havia mergulhado na Grande Guerra. Em Porto Alegre, a rotina pacata da Rua da Praia transformou-se abruptamente. Homens de cartola, operários de boina e jovens estudantes aglomeravam-se diariamente em frente às janelas das gazetas Correio do Povo e A Federação. Todos queriam ler os últimos boletins telegráficos colados nos vidros, que narravam o avanço das tropas na Europa. A capital gaúcha, lar de uma imensa e influente colônia de imigrantes alemães e italianos, viu as tensões globais invadirem as mesas de bar e o convívio social. A cidade estava irremediavelmente dividida entre simpatizantes dos Aliados e defensores do Império Alemão.
E como se o reflexo da guerra não bastasse, essa fratura ideológica e política espalhou-se como pólvora para dentro das quatro linhas do futebol porto-alegrense.
A Grande Cisão: O Futebol Ganha Duas Ligas
Se no ano anterior, em 1913, o Internacional havia comemorado seu primeiro título em uma liga única (apesar do abandono de rivais na reta final), em 1914 o racha institucional tornou-se oficial e definitivo. O rival Grêmio, acompanhado pelo Fussball Club — agremiações fortemente ligadas à colônia alemã e à elite —, decidiu romper de vez com a LPAF (Liga Porto-Alegrense de Foot-Ball). Juntos, fundaram uma liga paralela, a AFPA.
De repente, Porto Alegre tinha dois campeonatos disputados simultaneamente. De um lado, o torneio da elite dissidente; do outro, a tradicional LPAF, onde o Internacional permaneceu firme como o grande bastião. Enquanto o mundo lá fora se despedaçava em nacionalismos, dentro da cerca de madeira da Chácara dos Eucaliptos o “Clube do Povo” provava a força de sua união. Luso-brasileiros, filhos de italianos e brasileiros de todas as origens cerravam fileiras em torno de um único objetivo: defender a taça conquistada no ano anterior.
O Alçapão da Azenha e a Confirmação do Domínio
A Chácara dos Eucaliptos já não era mais apenas um terreno adaptado com tábuas e telhas de zinco; em 1914, ela havia se transformado em um verdadeiro alçapão. A torcida colorada, que continuava crescendo entre as camadas populares e estudantis da cidade, lotava as pequenas arquibancadas de madeira a cada domingo, transformando o silêncio fúnebre exigido pela antiga etiqueta do esporte em um caldeirão de gritos e incentivo.
Sob a liderança técnica e o porte imponente do capitão Carlos Kluwe no meio-campo, e com o faro de gol de atacantes implacáveis como Túlio e Francisco Vares, o Internacional foi um rolo compressor no campeonato da LPAF. Sem tomar conhecimento de adversários valentes como o Colombo, o Cruzeiro e o São José, o esquadrão colorado repetiu a dose do ano anterior com uma superioridade assustadora. Ao apito final da temporada, o Internacional sagrava-se Bicampeão Citadino de Porto Alegre (1913-1914), ostentando mais uma vez uma campanha imaculada e invicta. A taça continuava na Azenha, provando que, em tempos de guerra e divisão, o Clube do Povo era a verdadeira força soberana da capital.
Em apenas seis anos, o Internacional havia saído dos porões da Ilhota para o topo do futebol porto-alegrense. Mas será que o alçapão da Azenha seria capaz de suportar a explosão da massa colorada quando o time entrasse em campo, em 1915, para buscar o inesquecível Tricampeonato?
Resumo Estatístico de 1914
Ficha Técnica do Ano:
Presidente: Henrique Poppe Leão.
A grande marca: A conquista do Bicampeonato Citadino Invicto pela LPAF em meio à cisão do futebol gaúcho e ao início da Primeira Guerra Mundial.
Saldo da Temporada (LPAF): 5 jogos oficiais registrados, 5 vitórias, 0 empates e 0 derrotas. Bicampeão Invicto!
Jogos do Bicampeonato (Citadino LPAF 1914):
Em um campeonato disputado em paralelo à liga rival (AFPA), o Inter dominou os clubes filiados à LPAF com 100% de aproveitamento:
Inter 4 x 1 Colombo
Inter 3 x 0 Cruzeiro-POA
Inter 5 x 0 São José-POA
Inter 2 x 0 Colombo
Inter 3 x 1 Cruzeiro-POA
A Equipe Bicampeã (Base):
Russomano (G) | 2. Paulo Mariath | 3. Simão | 4. Pery | 5. Carlos Kluwe (Capitão) | 6. Pedro Chaves | 7. Túlio | 8. Galvão | 9. Miller | 10. Fabrício | 11. Francisco Vares.
FONTES:
As informações, o contexto de época e os dados estatísticos que embasaram o texto sobre o ano de 1914 foram extraídos das seguintes fontes de pesquisa histórica e acervos do futebol gaúcho:
Arquivo Histórico de Porto Alegre e UFRGS (Repositório Digital Lume / ClicRBS):
Uso no texto: Reconstrução do ambiente da capital gaúcha com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em julho/agosto de 1914, o impacto das notícias telegráficas exibidas nas vitrines dos jornais Correio do Povo e A Federação na Rua da Praia, e a divisão da sociedade porto-alegrense e da colônia imigrante.
RSSSF Brasil (Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation) e Futebol Nacional (futebolnacional.com.br):
Uso no texto: Dados precisos sobre a cisão do futebol de Porto Alegre em 1914, detalhando a permanência do Internacional na LPAF (Liga Porto-Alegrense de Foot-Ball) e a criação da entidade rival AFPA pelo Grêmio e Fussball. Também serviu como base para os placares da campanha invicta (como as vitórias sobre Colombo, Cruzeiro e São José).
Site Oficial do Sport Club Internacional (internacional.com.br / scinter.com.br):
Uso no texto: Registros sobre a consolidação da Chácara dos Eucaliptos como um “alçapão” com arquibancadas lotadas de torcedores populares e estudantes, além da confirmação da liderança do capitão Carlos Kluwe e do faro artilheiro de Francisco Vares e Túlio no inédito Bicampeonato Citadino (1913-1914).
Livros de Referência da Historiografia Gaúcha:
“História do Campeonato Citadino de Porto Alegre” (de Douglas Rambor, José Luis Tavares Maciel e Julio Bovi Diogo) e acervos do Museu do Futebol, que catalogam o fenômeno dos “dois campeões” de 1914 e as súmulas remanescentes da época do amadorismo.
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