1916: O Adeus ao Pai Fundador, a Liga Unificada e o Show dos Seis Gols
Enquanto o ano de 1916 avançava sob o frio do inverno gaúcho, Porto Alegre parecia viver em um compasso de espera. A Primeira Guerra Mundial continuava cobrando seu preço na economia, encarecendo produtos importados no porto da cidade, mas a vida cultural pulsava firme com a inauguração de novos cinemas e a expansão incessante dos bondes da Linha Menino Deus. No entanto, para a imensa e apaixonada massa de torcedores que já adotava o Sport Club Internacional como sua religião particular, aquele mês de agosto traria um silêncio pesado e doloroso, capaz de abafar até mesmo os ecos das maiores goleadas na Chácara dos Eucaliptos.
No dia 14 de agosto de 1916, com apenas 34 anos de idade, o coração do grande mentor colorado parou de bater. Henrique Poppe Leão, o irmão mais velho, o jornalista brilhante e o cérebro visionário que havia concebido a ideia de um “Clube do Povo” aberto a todas as etnias e classes, falecia precocemente vítima de uma grave uremia. O cortejo fúnebre rumo ao cemitério da Santa Casa reuniu a diretoria, atletas e torcedores em um luto profundo. Ao lado do caixão caminhavam, desolados, seus dois irmãos mais novos: José Eduardo Poppe e Luiz Madeira Poppe. Diferente de Henrique, que dedicara sua vida à prancheta administrativa e à imprensa sem nunca calçar chuteiras, José e Luiz haviam suado a camisa branca de listras vermelhas dentro de campo nos primeiros anos da Ilhota. Em 1916, ainda radicados na capital gaúcha e ligados à vida social do clube, os dois irmãos viam partir o pilar da família e o pai da instituição.
Mas o destino parecia ter reservado um presente de despedida monumental para Henrique Poppe Leão poucos dias antes de sua partida.
A Paz Selada e o Pesadelo do Rival
O ano de 1916 entrou para a história do futebol gaúcho como o ano da grande pacificação. Cansados de disputar campeonatos paralelos que dividiam a atenção do público, os dirigentes da tradicional LPAF e da dissidente AFPA sentaram à mesa e selaram a fusão, criando a Federação Sportiva Rio Grandense (FSRG). Pela primeira vez em anos, o Internacional e o rival Grêmio voltariam a disputar a mesma taça oficial.
E se os aristocratas do Grêmio esperavam retomar a hegemonia da capital diante de um Inter abalado pela saúde de seu fundador, o que se viu em campo foi um verdadeiro massacre comparativo.
No dia 30 de julho de 1916 — exatas duas semanas antes da morte de Henrique Poppe —, a Chácara dos Eucaliptos lotou para o primeiro Gre-Nal da liga unificada. O esquadrão colorado entrou em campo mordido. O que se seguiu foi a maior exibição individual da história do clássico em todos os tempos. O atacante colorado Francisco Vares estava endiabrado e marcou, sozinho, nada menos que seis gols. O placar final de 6 a 1 desmoronou o moral do rival. E para provar que não havia sido um acidente, no segundo turno, em outubro, o Inter invadiu o Estádio da Baixada e venceu o Grêmio novamente por 3 a 2.
Comparativamente, o Grêmio teve que se contentar em assistir à festa colorada de camarote, terminando como vice-campeão. Sob o comando técnico do intocável capitão Carlos Kluwe, o Internacional encerrava o ano erguendo a taça de Tetracampeão Citadino (1913-14-15-16), mantendo sua aura de invencibilidade intacta. Henrique Poppe Leão partiu para a eternidade com a certeza absoluta de que o seu Clube do Povo havia se tornado o rei incontestável do Rio Grande do Sul.
Resumo Estatístico de 1916
Ficha Técnica do Ano:
Presidentes: Carlos de Lorenzi / Coronel Antonio de Oliveira Maia.
A grande marca: A unificação do futebol gaúcho pela FSRG, o luto pela morte do fundador Henrique Poppe Leão e o recorde histórico dos 6 gols de Vares no clássico.
Saldo da Temporada (Citadino FSRG): 6 jogos oficiais registrados, 6 vitórias, 0 empates e 0 derrotas. Tetracampeão Invicto!
Jogos do Tetracampeonato (Citadino FSRG 1916):
Na primeira liga unificada da capital, o Inter sobrou com 100% de aproveitamento:
Inter 6 x 1 Grêmio (O Show de Vares)
Inter 3 x 2 Grêmio (No Estádio da Baixada)
Inter 3 x 0 Colombo (W.O.)
Inter 2 x 0 Cruzeiro-POA
Inter 5 x 1 Americano-POA
Inter 4 x 1 Fussball
A Equipe Tetracampeã (Base):
Russomano (G) | 2. Paulo Mariath | 3. Simão | 4. Pery | 5. Carlos Kluwe (Capitão) | 6. Pedro Chaves | 7. Túlio | 8. Galvão | 9. Miller | 10. Fabrício | 11. Francisco Vares.
FONTES:
As informações biográficas, os bastidores políticos e as estatísticas de campo que embasaram o texto sobre a temporada de 1916 foram extraídos das seguintes fontes historiográficas e acervos esportivos:
Arquivo Histórico do Sport Club Internacional / Projeto Memória:
Uso no texto: Confirmação da data exata de falecimento de Henrique Poppe Leão (14 de agosto de 1916), a causa da morte (uremia grave decorrente de falência renal) e seu sepultamento no cemitério da Santa Casa. Também embasou a presença ativa de seus irmãos mais novos, José Eduardo e Luiz Madeira Poppe, que haviam sido atletas nos primórdios da Ilhota e acompanharam o luto institucional do clube.
Almanaque do Gre-Nal (de David Coimbra, Nico Noronha e Mário Marcos de Souza) / grenal.net.br:
Uso no texto: Detalhamento minucioso do histórico Gre-Nal de 30 de julho de 1916 na Chácara dos Eucaliptos, atestando o placar de 6 a 1 e o recorde insuperável do atacante Francisco Vares, autor de todos os seis gols colorados na partida. Também atestou a vitória no segundo turno por 3 a 2 no Estádio da Baixada.
RSSSF Brasil e Futebol Nacional (Bancos de Dados Estatísticos):
Uso no texto: Registros sobre a unificação do futebol gaúcho com a fusão da LPAF e da AFPA para a criação da Federação Sportiva Rio Grandense (FSRG). Confirmou a tabela do campeonato, o vice-campeonato do Grêmio e a campanha com 100% de aproveitamento do Internacional (6 vitórias em 6 jogos) rumo ao Tetracampeonato.
Livro “História do Campeonato Citadino de Porto Alegre: 1910-1972” (de Douglas Rambor, José Luis Tavares Maciel e Julio Bovi Diogo):
Uso no texto: Compilação das fichas técnicas oficiais, confirmando a presidência do Coronel Antonio de Oliveira Maia após a gestão de Carlos de Lorenzi, além da escalação-base liderada pelo capitão Carlos Kluwe.
Acervo Digital do Jornal A Federação (Biblioteca Nacional / UFRGS):
Uso no texto: Contextualização do cenário socioeconômico de Porto Alegre durante a Primeira Guerra Mundial (dificuldades de importação no porto e avanço das linhas de bondes) no inverno de 1916.
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