1915: Da Lama da Ilhota ao Alçapão Lotado, o Tricampeonato Invicto
Sob a longa e transformadora gestão do Intendente José Montaury, a Porto Alegre de 1915 via o passado ficar para trás a cada esquina. Os velhos e bruxuleantes lampiões a gás cediam espaço definitivo para a luz elétrica que cortava a neblina do Guaíba, as linhas de bondes ganhavam novos trilhos rumo aos arrabaldes e o calçamento de pedras mudava a acústica do Centro. A capital modernizava-se com pressa, embalada pelo ritmo febril do comércio na Rua da Praia. E se um velho torcedor porto-alegrense parasse nas escadarias da Praça da Matriz naquele inverno e puxasse pela memória o que era o Sport Club Internacional apenas seis anos antes, em 1909, ele dificilmente acreditaria no que seus olhos viam.
A transformação do Clube do Povo beirava o milagre. Em 1909, o Inter não passava de um sonho juvenil rabiscado pelos irmãos Poppe no porão escuro de um casarão na Rua Redenção. Aqueles pioneiros jogavam em campos de terra batida e lama na Ilhota, frequentemente alagados pelas águas do arroio, sem cercas para conter a bola ou arquibancadas para abrigar os poucos curiosos. Haviam estreado no clássico com uma derrota impiedosa de 10 a 0, sob os olhares de desdém da elite aristocrática. Não tinham taças, não tinham patrimônio, tinham apenas a teimosia de existir.
Mas em 1915, o cenário era de arrepiar.
A Armadura dos Pioneiros: Algodão, Couro e o Monograma Entrelaçado
Nos primórdios do Sport Club Internacional, entre 1909 e 1915, entrar em campo exigia vestir uma verdadeira armadura rústica da Belle Époque. O visual que marcou o nascimento do clube foi idealizado pelos próprios irmãos Poppe, que buscaram inspiração no vibrante grupo carnavalesco porto-alegrense Os Venezianos para definir as cores que tomariam conta da cidade. O primeiro fardamento da história colorada — composto por uma camisa branca com listras verticais vermelhas, calções brancos e um charmoso boné alvirrubro — não veio de nenhuma fábrica moderna, mas sim das mãos habilidosas de costureiras locais, com destaque para a senhora Humbertina Pacheco Fachel, que atendeu ao pedido de urgência dos fundadores e costurou o lote inicial em cerca de uma semana. O tecido utilizado era um algodão espesso e pesado, quase como uma flanela, que absorvia avidamente o suor dos atletas e a lama da Ilhota, tornando o uniforme um teste extra de resistência física sob o sol ou a chuva de Porto Alegre.
No peito esquerdo dessa camisa pesada pulsava a primeira identidade visual do clube: não o escudo redondo dos dias de hoje, mas um elegante e minimalista monograma com as iniciais “SCI” (Sport Club Internacional) artisticamente entrelaçadas em vermelho sobre o fundo branco, sem qualquer borda ou contorno. Para completar o fardamento, os pés dos heróis colorados calçavam pesadas botas de couro escuro e cano alto que cobriam os tornozelos. Essas chuteiras pioneiras eram calçados rígidos e robustos, que contavam com travas rústicas de couro prensado ou madeira pregadas manualmente na sola pelos sapateiros da cidade, garantindo a tração necessária para que craques como Benjamin Vinholes, Carlos Kluwe e Francisco Vares pudessem correr, driblar e empilhar taças no gramado e na terra batida da Chácara dos Eucaliptos.
O Blog Vermelho em 2009 reintroduziu o Escudo sem borda, só as letras entrelaçadas em alguns Bonés e depois disso a moda pegou. O Inter soube da ideia (me convidaram no Beira Rio e presenciei eles do Marketing com um Boné) e logo depois o Inter começou a lançar camisa de passeios assim e bonés. Com o passar do tempo esses escudo sem borda começou a aparecer em camisas de treinos e eventualmente em camisas de jogos.
O Caldeirão da Azenha e a Massa Soberana
A Chácara dos Eucaliptos havia se convertido em um templo sagrado do futebol gaúcho. Erguidas com o suor e as mensalidades dos próprios sócios, as arquibancadas de madeira agora fervilhavam a cada domingo. O Inter não era mais o time dos porões; era o gigante abraçado pelas massas. Operários, caixeiros do comércio, luso-brasileiros, filhos de imigrantes italianos e a juventude acadêmica da Faculdade de Medicina lotavam a Azenha, criando uma atmosfera pulsante e ensurdecedora que intimidava qualquer adversário que cruzasse a porteira dos Eucaliptos.
O futebol da capital continuava cindido pela rivalidade política em duas ligas paralelas (a LPAF e a AFPA). Enquanto o Grêmio disputava o torneio da liga dissidente, o Internacional reinava soberano e inquestionável como o pilar da tradicional LPAF.
Um Rolo Compressor Rumo ao Tri
Dentro de campo, o esquadrão colorado de 1915 jogava por música e com uma autoridade assustadora. Comandados pela presença mítica do capitão Carlos Kluwe na zaga e no meio-campo, e embalados pelo entrosamento letal do ataque formado por Túlio, Vares e Miller, o Internacional transformou o campeonato da LPAF em um espetáculo particular de gala.
A campanha foi marcada por atuações avassaladoras, tendo como grande sinfonia a goleada histórica de 9 a 1 sobre o São Paulo de Porto Alegre no final de maio. Ninguém era capaz de segurar o ímpeto daquele time que misturava a técnica refinada dos estudantes com a garra e o vigor físico das ruas. Ao encerrar o torneio, o Internacional comemorava o Tricampeonato Citadino (1913-1914-1915), ostentando mais uma vez uma impressionante campanha invicta. Em apenas seis anos, o clube havia saído da lama da Ilhota para empilhar três taças consecutivas na Azenha, provando que o Clube do Povo nascera para reinar.
Resumo Estatístico de 1915
Ficha Técnica do Ano:
Presidente: Henrique Poppe Leão.
A grande marca: A consolidação do Alçapão dos Eucaliptos e a conquista do Tricampeonato Citadino Invicto pela LPAF.
Saldo da Temporada (Citadino LPAF): 4 jogos oficiais registrados, 4 vitórias, 0 empates e 0 derrotas. Tricampeão Invicto!
Jogos do Tricampeonato (Citadino LPAF 1915):
Em mais um ano de ligas divididas, o Inter sobrou contra os rivais filiados à LPAF:
Inter 9 x 1 São Paulo-POA (A Grande Goleada)
Inter 3 x 1 Colombo
Inter 4 x 0 Cruzeiro-POA
Inter 2 x 0 Colombo
A Equipe Tricampeã (Base):
Russomano (G) | 2. Paulo Mariath | 3. Simão | 4. Pery | 5. Carlos Kluwe (Capitão) | 6. Pedro Chaves | 7. Túlio | 8. Galvão | 9. Miller | 10. Fabrício | 11. Francisco Vares.
FONTES:
As informações, os relatos históricos e os dados técnicos que embasaram os textos sobre a temporada de 1915 e a evolução dos primeiros uniformes foram extraídos das seguintes fontes e pesquisas do acervo colorado:
Site Oficial do Sport Club Internacional (internacional.com.br / scinter.com.br):
Contribuição: Registros oficiais do Departamento de Patrimônio Histórico sobre a fundação pelos irmãos Poppe, a inspiração nas cores do grupo carnavalesco Os Venezianos, e a consolidação do Alçapão da Chácara dos Eucaliptos na conquista do Tricampeonato Citadino Invicto (1913-1914-1915).
Acervo Histórico de Porto Alegre / Almanaque Gaúcho (ClicRBS / UFRGS):
Contribuição: Contextualização sobre as obras de modernização de Porto Alegre na gestão do Intendente José Montaury (calçamento, expansão dos bondes e iluminação elétrica), além do contraste social entre a origem modesta do clube nos porões e o apoio maciço das camadas populares.
Memória da Confecção e Identidade Visual (Retromania / Arena Geral / Fandom Colorado):
Contribuição: Pesquisa historiográfica sobre o primeiro fardamento costurado por Humbertina Pacheco Fachel em 1909, o uso de tecidos pesados de algodão da Belle Époque, e a descrição exata do primeiro escudo, que consistia apenas no monograma das letras “SCI” entrelaçadas em vermelho sem bordas.
RSSSF Brasil e Enciclopédias do Futebol Gaúcho:
Contribuição: Dados sobre a manutenção da invencibilidade colorada na LPAF (Liga Porto-Alegrense de Foot-Ball) em 1915, atestando placares históricos como a goleada de 9 a 1 sobre o São Paulo-POA e vitórias sobre o Colombo e Cruzeiro-POA.
Catálogos do Museu do Futebol (museudofutebol.org.br):
Contribuição: Detalhamento técnico sobre os calçados e equipamentos dos primórdios do futebol no Brasil, documentando as pesadas botas de couro de cano alto com travas e pregos afixados manualmente por sapateiros.
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