Eu gosto do Abel. Convidaria fácil pra um churrasco. Quando vejo ele na beira do campo, com os trejeitos, desengonçado, equilibrando a barriga enquanto caminha de um lado pro outro a beira do campo dá pra adotar como “tio” Abel.
O Treinador da era de ouro do São Taffarel. Sofri com ele contra o “Baêa” em 1988/89, comemorei mais que copa do mundo o grenal do século. Na libertadores de 1989 lembro do banho contra o peñarol – jogou como campeão. Já, contra o Olympia, me recordo da emoção ao ver o INTER fazer o gol de empate com o Dacroce – que gol! (Nunca esqueci o nome dele, até dizia que eu era ele jogando, no auge de meus oito anos: me era ao mesmo tempo um nome sonoro e pomposo… que gol! Tubo bem que o do Luis Fernando para a vitória no jogo de ida foi bonito. Mas, “Dacroce é craque!”). Aquela foi uma copa Libertadores muito louca! Teve o massacre (pra não dizer estupro) no Juventude naquela final de gauchão em 2008, os retumbantes e sonoros 8×1! Como me fez bem esse resultado.
Abelão fica emocionado com a gente. Acho que isso é notório. Ele me parece respeitar o torcedor e ao mesmo tempo seus jogadores. Acho que por haver meio que uma simbiose dele torcedor (ele se envolve com o time que comanda) com ele ex-jogador. Por conta disso o Abel teve vários episódios legais, outros nem tanto… Porém, isso não transforma ele num Guardiola, num Mourinho. Mas, mesmo sem grife, pompa ou circunstância ele fez coisas boas. FIM!
Dizem que quem armou o time pra bater o Barcelona foi Fernandão, Clemer e Iarley. Podemos contratar qualquer detetive ou perito para comprovar isso. Mas, quem escalaria Adriano Gabiru no lugar no Fernandão? Pra mim isso só prova que ele gosta de um “mé” (RIP Mussum). Não me imagino com essa inspiração nem depois de secar uma garrafa de qualquer líquido com consumo proibido pra menores de 18 anos.
Quem lembra do jogo pode ter nítido na memória agora o Iarley levando a bola centralizado tendo o Luiz Adriano correndo pela sua direita e o GabiGol correndo pela esquerda. Quis o destino que a bola chegasse aos pés do Adriano da esquerda, que estava melhor posicionado, e o resto é história.
Mas, voltamos a velha máxima do futebol brasileiro onde não se sabe porque perde, muito menos porque se ganha uma partida. As coisas parecem que vindas de uma concessão divina. Pode até ajudar, mas a realidade das conquitas não tem apenas as velas, o incenso e as orações como lastro.
Dizer que ganhamos o mundo por conta de numerologia de boteco é a mesma vergonha alheia que sinto quando falam que a preparação física brasileira é de primeiro mundo… Essa frase fica retumbando na minha cabeça quando vejo os caras da NFL em seus testes anuais. Com a diferença que ao falar do (des)preparo físico não estou diminuindo o talento, esforço e foco de gigantes como Iarley, Fernandão, Clemer que jogaram a vida nesse jogo e ajudaram a segurar as pontas na defesa e no ataque os 90 minutos.
Antes que alguém diga:”Ha! Mas o soccer é muito diferente do Football”. Concordo, os dois esportes tem exigências diferentes. Mas, não podemos esquecer que o futebol de bola redonda está diferente também. Hoje em dia não dá mais pra sair direto da noitada para o jogo e esperar vencer. Hoje em dia se leva sete gols em semi-final de copa do mundo sem saber o porquê.
Eu entendo toda a mística e superstição que envolve o nosso futebol. Vejo mais como o embrião de preparo mental/emocional. Mas, convenhamos, não vai além de motivação para dar segurança ao malandro. Acho mais importante o jogador estar em boas condição tanto técnica, quanto física, mental e emocional.
Todo o axé, toda a fé e crenças quando postas em primeiro plano são mais para compensar a insegurança de um trabalho de bastidor mal feito. Antes de escolher uma meia furada ou uma cueca velha o atleta profissional deve chutar mais vezes, correr mais longe e mais rápido, estudar mais tempo. Para que, assim, quer seja o escapulário, a vela, ou o despacho sejam seu complemento no seu âmbito privado. Porque no futebol, amigo, pra ser campeão, como já disse o Muricy, é trabalho.
O Abelão pode ter a licença poética que quiser, ele é da era romântica do futebol. Mas nós, nos dias atuais, não podemos nos balizar por isso – não afirmo que ele faça isso, apenas usei o “gancho”. Mesmo que você tivesse uma simpatia por Tutancâmon na infância, deve saber que a mão divina só passa pelo caminho que é aberto pela força do trabalho.

