Eu tinha uma colega formada em direito que dizia categoricamente: a gente é capaz de tudo. Toda pessoa é capaz de qualquer coisa… Só o que falta são as motivações e os meios.
Mas, sem estar com isso em mente eu, na calada da noite, como ritual de inicio para um período de descanso, iniciei a série “Doutor Castor”que está com acesso liberado no GloboPlay. Uma passagem me pegou! Não julgue o valor moral do fato ou das pessoas envolvidas.
Certa feita, o Bangu comandado pelo Castor de Andrade contratou um bom jogador, mas ele gostava muito de uma farra e nada de treinar. Numa dessas noites de interação mais próxima com a torcida, durante a madrugada, ele emendou a noitada com a atividade profissional e chegou direto da farra para o treino (quem nunca?). Os jogadores aqueciam com um jogo de bobinho e, ao invés de participar da atividade, ele foi se esconder atrás de uma barreira de treino e pegou no sono. Ao pegar no sono começou a roncar e, nesse momento, um dos jogadores do grupo foi avisar ao chefe da porra toda, Doutor Castor, que o craque recém chegado estava descansando os olhos. O Castor de Andrade desceu da arquibancada bufando, furioso. Quando estava a uns sete metros do jogador, sacou uma pistola que ele trazia presa ao tornozelo e deu um tiro de alerta em direção ao sonolento atleta, o projetil desse disparo acabou passando perto da cabeça do homem fazendo as vezes de despertador. Disse o cidadão que dedurou a cena ao presidente do time que nunca viu, depois do episódio, um outro jogador que treinasse com tanto empenho.
Não estou incentivando que se faça demonstrações de força e coação por meios armados para fazer nossos jogadores melhorar seu desempenho esportivo. Por outro lado, nota-se a anos que falta ambição para a maioria dos atletas que usam nossa camisa. Parece que a maioria quando chega a certo patamar na carreira chega a um spa localizado na Padre Cacique.
Eu acredito que nenhuma motivação é duradoura se vem de fontes externas (dinheiro, principalmente), porque depois de um período tudo vira uma espécie de paisagem que não traz sensação real de recompensa. A própria motivação é assim, uma espécie de fogo em palha. Nosso cérebro funciona assim. O cérebro se acostuma, a recompensa perde o gosto, e o jogador que era faminto começa a treinar como quem faz hora até o almoço.
O problema é que proporcionamos uma situação tão confortável que nossos atletas podem se proteger nos muros de seus condomínios, convencidos de que são injustiçados, sem nunca sentir o desconforto que faz alguém querer ser melhor.
Por meios tortos o Castor de Andrade entendia isso. Na brutalidade enviesada dos métodos dele, havia uma verdade: nada mais acorda um homem como a sensação de que algo pode ser tirado dele. Um contrato novo, uma posição em disputa, um concorrente chegando ou, no limite, um projétil a alguns centímetros da orelha.
O dinheiro é recompensa e validação, não deveria ser a meta em si porque que é no desconforto que as coisas que valem a pena acontecem.
Não precisa ser o tiro. Mas alguma coisa precisa zunir.
