Ver os jogos do Inter, ultimamente, tem sido mais um exercício de resistência do que de entretenimento. Dói, e não é pouco.
Com a morte do genial Oscar Schmidt, voltaram a circular entrevistas em que ele explicava, com simplicidade brutal, o segredo da excelência: a mão não era santa. Era treinada. Exaustivamente treinada. E quanto mais treinava, mais “santa” ela ficava.
Guarde isso.
Agora liga a TV num dia de jogo qualquer. Cerveja aberta, expectativa ajustada, nem alta, nem baixa, só cautelosa. E o que aparece? Jogadores profissionais, pagos, preparados, inseridos na elite do esporte, com dificuldade para dominar uma bola simples ou acertar um passe de três metros. Não estamos falando de jogada genial. Estamos falando do básico do básico.
E aqui está o ponto central: desempenho não é mistério, é hábito.
O corpo executa aquilo que foi repetido. Fundamento não falha “do nada”. Ele falha porque foi mal treinado, pouco treinado ou simplesmente negligenciado. Não existe mágica, nem inspiração divina que resolva o que não foi incorporado por repetição.
Por isso, a discussão sobre salário atrasado até pode explicar motivação, mas não explica fundamento errado. Dominar uma bola não é um ato emocional. É motor. É padrão. É treino acumulado.
E aí entra um exemplo que, goste ou não, ajuda a organizar essa conversa: Rafael Borré.
Nos primeiros meses, ele parecia outro jogador. Mais agressivo, mais coordenado, mais decisivo. Chegou a fazer um gol contra o Flamengo, driblando o Ortiz filho com uma naturalidade quase ofensiva, que foi, sem exagero, uma das coisas mais bonitas de se ver com a camisa do Inter nos últimos anos. Ali havia tempo de bola, confiança, execução limpa. Aquilo não nasce do nada.
Depois, o nível caiu. E caiu justamente no que não deveria oscilar tanto: o básico. Domínio, finalização, tomada de decisão simples. Não é preciso acesso ao cronograma de treinos para levantar uma hipótese plausível: algo mudou na rotina, na intensidade, na repetição. Porque quando o treino muda, o corpo denuncia.
É quase como se o jogador tivesse desaprendido, o que, na prática, não é tão absurdo quanto parece. O sistema motor se adapta ao que é reforçado. Se o nível de exigência cai, a execução acompanha. O corpo não tem senso crítico. Ele tem memória.
E nós, como torcida, assistimos.
Assistimos com uma paciência que beira o comportamento de quem já aceitou o roteiro. Talvez seja influência de anos consumindo narrativas onde tudo se resolve no final, seja numa novela ou num filme do Rambo, em que o sujeito sai de uma prisão e, dois dias depois, resolve sozinho um problema que um exército inteiro não resolveu em uma década.
No futebol real, não funciona assim. Não existe redenção espontânea sem processo. Não existe evolução sem repetição. Não existe “virada de chave” que substitua treino.
E talvez o ponto mais incômodo seja esse: a gente normaliza. Reclama, ironiza, faz meme… mas normaliza. Como se ver fundamento mal executado fosse parte inevitável do pacote. Não é.
Ninguém está exigindo perfeição. Muito menos disciplina monástica. Jogador vai sair, vai aproveitar a carreira curta, vai viver, e isso é parte do jogo. A única exigência razoável é outra: que, dentro de campo, o básico seja respeitado. Porque é o básico que sustenta todo o resto.
No fim das contas, a lição continua sendo a mesma do Oscar: não existe mão santa. Existe repetição bem feita.
E, convenhamos, dominar uma bola não deveria exigir milagre.
