O novo presidente da FIFA mal assumiu e já anunciou que o futebol e as principais decisões do jogo serão auxiliadas pelo uso da tecnologia – sensores, videos e a interpretação de auxiliares aos 3 árbitros principais.
Confesso que não li muito mais a respeito das mudanças, não sei se o cronômetro vai parar, se será dado acréscimo, e se os lances que estão sendo usados como ilustração estão limitados apenas a gol, impedimento, penalty e expulsão.
Mesmo não sabendo tudo – será que já foi esclarecido em detalhes? – minha opinião é que isso só vai melhorar o espetáculo.

A foto é minha, batida no momento que o Benzema chuta prá fazer o terceiro gol, no primeiro jogo em que a tecnologia foi usada prá validar um gol e Copa do Mundo: França 3 x 0 Honduras.
Falo por experiência.
O que talvez todo mundo aqui não sabe a meu respeito é que o grande esporte da minha vida não é futebol. Coisa que os presentes no futchurras 2007 vão lhes garantir! Desde meus 6 anos de idade, com algumas pausas por causa de estudo, trabalho e filha, eu pratico esgrima.
Joguei durante anos em Porto Alegre pelo União, e alguns aqui no Canadá também. Ganhei muita coisa na forma de raciocínio rápido, forma física, uma meia dúzia de medalhas, muitas amizades (o mais importante de tudo), mas para o tópido deste texto, uma coisa que eu aprendi muito é saber ganhar e perder. E olha que eu perdi muito mais que ganhei, pois estava longe de ser um dos melhores!!
O fato é que a esgrima, tão diferente do futebol, tem seu objetivo máximo – o toque no adversário – registrado por equipamentos eletrônicos a quase um século (sem exagero, as armas são elétricas desde 1933), mas que apesar da tecnologia, a decisão final está centrada no árbitro. Humano. Como no futebol.
Este, até há uns 10 anos atrás, deveria decidir na hora a validação de um ponto. Como no futebol, se a bola entrou ou não, se estava impedido ou não, se a entrada foi na canela ou com o cotovelo, ou se foi dentro dá área.
Não preciso explicar muito mais que o objetivo de um combate na esgrima é atingir o adversário mais vezes do que se é atingido. Até uma contagem de 5 toques para combates qualificatórios ou 15 toques para combates eliminatórios. Ou estar na frente quando o tempo acaba. Bem simples.
Mas, adiciona-se a isso algumas variações de zona válida no corpo dependendo da arma (são 3 diferentes), e algumas regras sobre precedência, e a decisão do árbitro sobre um ponto fica extremamente complexa.
Para quem quiser dar uma olhada no video abaixo, considere a velocidade das ações (a esgrima é apelidada de xadrez em alta velocidade!). O árbitro precisa julgar a ação e validar um ponto assim que a ação é concluída.
Tendo em vista que a imensa maioria aqui é leiga no esporte, a dificuldade parece meio óbvia. Mas digo que até para quem viveu o esporte por mais de 30 anos, as vezes até 1/3 das acões em um combate podem parecer confusas, e a validação ou não de um toque vai provavelmente gerar muita discussão. Eu sei pq já discuti muito com juizes (certo ou errado), e também já tomei muito xingão (certo e errado) quando estava na posição de árbitro em um combate. O mesmo acontecia em alto nível, onde existem casos (com vídeo!) de discussões e brigas em eventos como mundiais e olimpíadas!
Mas de uns anos para cá, em competições de alto nível, o auxílio de video-replay se tornou obrigatório, e praticamente acabou com discussões e confusões que se prolongaram por gerações. O que muitos dizem sobre ‘tirar o aspecto humano do jogo’ não faz o mínimo sentido, pois o aspecto humano é o jogo em si. Disputado por humanos. Já a decisão deve ser justa; e para justiça, precisamos eliminar ao máximo o aspecto humano, e ficar com a lógica, a evidência e a razão.
O video não vai determinar 100% o que aconteceu em 100% das jogadas, assim como quem analisa ainda está sujeito a interpretação e influência. Uma coisa que não vai acabar, na minha opinião, é que Flamengo e Corinthians continuaram a ser beneficiados, agora por mais de 3 árbitros. Mas mesmo assim, considero um avanço no esporte fora do Brasil.
Vejam outros exemplos, como no Tênis, e mais perto de mim, nos esportes norte-americanos. Pergunto aos fãs destes esportes: mudou alguma coisa? Ficou pior ou melhorou? Tirou o aspecto “humano” de um jogo de tênis? Vocês sabiam que no hockey, TODOS os gols devem ser obrigatóriamente revisados pelo video (e uma comissão em Toronto), antes de ser dada nova saída? Por mais claro que um gol tenha sido, esta comissão não só analisa se o puck entrou no gol ou não, mas se não houve alguma irregularidade na jogada imediatamente anterior ao gol que os árbitros possam não ter visto.
Se tu é daqueles românticos que acham que “la mano de diós” foi um dos momentos mais mágicos do futebol, então esqueça o que eu escrevi, e não perca seu tempo tentando argumentar comigo. Nós estamos em extremos opostos do espectro, e um não vai convencer o outro. Nem quero. Nem tenta.
Eu fico mais com esportistas estilo o Guga, quando uma vez ao ir conferir uma bola achando que tinha ido para fora (contra a marcação inicial do árbitro), apagou a marca no saibro que estava parcialmente sobre a linha antes que qualquer equipamento ou árbitro verificasse, sinalizando que reconhecia o ponto contra. Pena que não achei o video.
E francamente, como colorado, um dos times mais prejudicados por arbitragens no Brasil, gostaria muito de ter lances históricos contra nós sendo re-escritos. Quem não lembra do penalty no Tinga? Da mão do Ronaldinho? Do penalty do Perdigão contra o Paulista? Do terceiro gol legal invalidado contra o Ceará?
Da mesma forma, eu não gosto de ganhar roubado. Não gosto mesmo. Me incomoda os lances do jogo contra o Nacional em 2006. Achei que o William tinha que ter sido expulso no último grenal.
Vale os dois lados da moeda.
Talvez não teríamos ganho a libertadores de 2006? Talvez. Mas quem garante que aquele time não teria ido prá cima do Nacional e empatado o jogo? Ou virado? Fizeram isso contra o Pumas, não fizeram? Duas vezes!
Os dois lados da moeda? Sim! Quem garante que teríamos feito o gol após o penalty do Tinga? Ou que teríamos segurado o 1 x 2 contra o Corinthians com Tevez, Nilmar e Mascherano no Pacaembu? Os corintianos não cansam de falar em um gol impedido nosso contra o Brasiliense? Mas que tal então listarmos TODOS OS ERROS CRUCIAIS de arbitragem naquele campeonato para um time e para o outro e ver quem acabaria na frente?
De uma forma ou de outra, teríamos sim resultados mais justos. E a emoção do futebol não está no erro do juiz (li isso no blog do Cosme hoje e gostei muito).
Uma coisa eu garanto: o sentimento de injustiça contra, ou de desconforto por uma vantagem desleal não estaria aí até hoje, ardendo feito bunda assada de criança.
