Certa feita, aventurando-me como treinador do time de um dos meus guris, decidi que precisava colocar ele no banco. Acho que já contei a história aqui. Era um bom goleiro, de fato, mas com lesão séria no joelho direito ficou sem treinar muito tempo e isso para um arqueiro – que precisa estar com reflexos e tempo de bola em dia, era fatal. O time foi campeão, mas ele sempre se ressentiu com o fato.
Só que no futebol o tempo sempre é curto e o pragmatismo é essencial.
Mas antes disso, com ele no seu auge e sendo cogitado até para testes em Clubes grandes, fomos jogar um torneio de verão na serra, tiro curto, quatro jogos em alguns dias, mais a final. Time meio capenga, parte da gurizada por estar na praia nem ficou sabendo da história. Ainda assim, chegamos na final.
Enfrentamos um time pragmático, sem muitas estrelas, mas que tinha disputado o Guri Bom de Bola. Treinador deles era um careca chamado Bruce, cara de poucos amigos, mas de conhecimento prático do futebol. Ele sabia o que precisava fazer e o time também. E vencer sempre foi seu lema, independente da qualidade que seu time desempenhava em campo.
Vejamos que não podemos chamar o Palmeiras atual de time operário, mas é pragmático. É um time de futebol dois patamares acima do nosso, no mínimo. Ainda assim, não se recente de esperar, de se recolher quando o adversário lhe pressiona, de ser o que chamam hoje em dia de “time reativo”. Sabem por quê? Pois vencer é bem mais importante para o seu Abel, do que o time desfilando futebol em campo.
O time adversário do meu naquele torneio tinha um jogador que era o “motor” da equipe, o Duda. Tudo passava por ele, um meia “carteador”. Do meu lado, um menino franzino chamado Nicolas, desengonçado, que mal pegava banco quando todo mundo estava disponível. Ainda assim, dei-lhe uma missão: impedir que o Duda tocasse o pé na bola e se o fizesse, que ele tratasse de neutralizar qualquer jogada do camisa 10 adversário. Não bastasse isso, gritei com o guri o jogo todo “o Duda, Nicolas, pega o Duda”.
Jogamos umas três ou quatro vezes com eles e perdemos a maioria. Nossa única vitória foi aquela (a mais importante) na final do torneio, um a zero chorado e gol do Marcos Boeira, um perna de pau que se achava craque mas que batia na bola como poucos naquele time.
De nada adianta termos posse de bola, desenvoltura em campo, mecânica de jogo, se o time deste ano segue a sina do ano passado: perde as chances que cria e quando leva, o faz com requintes de crueldade à Torcida Colorada, com bizarrices que só acontecem conosco. Pouco importa eventuais acertos se não consegue vencer as partidas. Como diria Dadá Maravilha, “não existe gol feio, feio é não fazer gol.
E tomando pra mim uma liberdade poética, diria que “não existe vitória feia, feio é não ganhar!”
O menino Nicolas, hoje um homem feito, passa por mim na rua e finge que não me conhece. Que seja. Todavia, deve sonhar todas as noites comigo gritando à beira do campo “o Duda, Nicolas, pega o Duda”.
Quando se trata de Internacional, atualmente, estou sempre acordado. Só que a vontade é logo voltar a sonhar com o tempo em que o Colorado ganhava de qualquer jeito.
No futebol, ao fim ao cabo, vencer é sempre o melhor destino. Simples e pragmático.
CURTAS
– Falo na boa e na ruim: Pezzolano é o técnico certo para o time;
– Mas, por não estar alheio a críticas, penso que demorou para mexer no time e mexeu mal;
– Contrário do que alguns disseram, não jogamos bosta nenhuma. Em casa tem que ganhar sempre. Independente do adversário;
– Alan Patrick foi um sortudo espectador dentro de campo, reconheço, mas ainda assim é o melhor jogador do time e é nesse tipo que a gente bota fé;
– Paulinho, a surpresa, ontem foi discreto. O que demonstra a minha razão em não se empolgar tão rápido. Um ótimo reserva, talvez;
– Pouco interessa se tem dinheiro ou não. Ou se contrata zagueiros de verdade ou vamos acabar o ano antes mesmo dele começar de verdade;
– Zagueiros que sabem zagueirar. Pragmáticos. Zagueiro construindo jogo é bonito quando se está ganhando;
– Incrível como Barcellos é um chama crise. Perdedor nato;
– Beira Rio virou um cemitério e não é de hoje. Boa parte da torcida vai ao estádio a passeio. Time em campo é só o reflexo da arquibancada!
PERGUNTINHA
Quando iremos ganhar um jogo no brasileirão?
Saudade do tempo que o Gigante era temido e que passar o carnaval na zona bem mais divertido.
PACHECO
PS.: Minha reverência ao bom Cristian pela cedência do espaço e meu desejo de melhoras de saúde à sogra, por quem o jovem (surpreendentemente) nutre elevada estima.