Nos meus tempos de guri e mesmo com o cruzar da vida por todas as suas particularidades e peculiaridades, festa de Igreja era um evento muitíssimo esperado, afinal, era a melhor chance de sair daquela rotina da lida de campo, ver gente e dançar algumas boas marcas, uma das maiores alegrias da gente do interior. Possivelmente começara ali a minha relação com a música, em que pese eu precise reconhecer que gostava bastante, também, de uma boa serenata.
Só que nem só de baile era feita uma festa de Santo: tinha muita churrascada em espeto talhado a facão, torneio de futebol nos sábados à tarde e guloseimas, com destaque para a maionese, o pastel e as tortas feitas pela Dona Lurdes, uma doceira de mão cheia. Saudade daquelas iguarias que ela fazia, aliás. Eram tão famosas as tortas da Dona Lurdes, que para evitar briga entre as Senhoras (e Senhores, igualmente) que temiam ficar sem prova-las, passou-se a fazer leilão das tortas, o que incrementava os lucros da festa em prol da Igreja ou do Vigário, enfim, discussão para outra oportunidade.
Quando meu Pai foi o festeiro, duas foram as suas atitudes marcantes: primeiro, contratou um baile do grande Adelar Bertussi, uma das maiores lendas da música serrana e fandangueira, cuja sua história fala por si só. Depois, tratou de acrescentar nos prêmios da rifa da festa uma das tortas da Dona Lurdes. E a certeza dele era tamanha de que a ideia ensejaria em uma maciça venda de números, que colocou o bolo como primeiro prêmio, a frente até da ovelha doada pelo Seu Enor, um religioso fervoroso e fazendeiro em quantia.
Pois lembrei da tão famosa rifa, ontem, já quando vi a escalação do time do Inter para enfrentar aquele que é o único campeonato a que merece atenção do Clube e da torcida neste corrente ano de 2026. Eu logo concluí, você também, bem como todo aquele que tem um nível de cognição ainda que sumária: optamos por conferir a um reles clássico de fase classificatória de gauchão poder sobrenatural. Todos os esforços das pernas e da vontade dos jogadores focados numa cortina de fumaça que logo se dissipou na partida seguinte, em uma derrota vexatória para um adversário medíocre e direto. Derrota não só vexatória como acachapante, a meu ver.
Como ser tão burro a ponto?
Aí, refletindo um pouco mais cá com os botões estourando da minha camisa, logo concluo que “rifa” foi o que o nosso Presidente fez de melhor ao longo desta sua fatídica gestão. Rifou, quase que literalmente, temporada após temporada da história do Sport Club Internacional, sempre com a ideia de que podia almejar mais com menos; vendendo ou entregando um jogador titular por algum boleiro vulgar qualquer, não encerrando ciclos ou mesmo fazendo da escolha de treinador um bingo, vez ou outra completando a cartela primeiro, muito mais por sorte do que qualquer resquício de certeza ou exatidão.
Aquela ideia de rifa com uma torta da Dona Lurdes foi tão perspicaz que muitos blocos extras tiveram de ser impressos. E por muito tempo meu velho Pai ficou conhecido como o maior festeiro da história daquela igrejinha de fundo de campo. Uma decisão simples, acertada e que só trouxe alegrias e satisfação à sortuda alma que logrou êxito em ter seu número sorteado por primeiro.
Não será sorte, contudo, o que fará o Internacional fugir novamente do descenso neste ano. Será a certeza de que é um real candidato à desgraça e o trabalho precisa ser focado para fugir desta triste sina. Nosso campeonato não é o gauchão, mas sim, o brasileirão. Ou se determina isso ou a nossa temporada será torta. E não será uma saborosa torta da Dona Lurdes.
Aliás, saudade daquelas iguarias que ela fazia. Tempo em que a vida era mais simples e que o Sport Club Internacional em casa era soberano e do campeonato era candidato ao título.
A vida, pois, anda torta.
CURTAS
– Paulo Pezzolano não pode sair de um técnico estrategista no domingo, para um professor pardal na quarta-feira seguinte;
– Se ele sabe porque veio e em quais condições, também tem saber o que nos mais importa;
– Não fez sentido esta ‘auto sabotagem’ imposta;
– Clássico se ganha sempre. Inclusive de 1 a 0 e jogando mal, por uma bola;
– Tem jogadores que alcançam um nível de desgraça que não se contorna mais, precisam buscar novos ares. E nessa barca remam Tabata, Juninho e Bruno Henrique;
– Acerta quem diz que Victor Gabriel não tem presente. Sinto informar, todavia, que futuro também não;
– O time desinteressado do ano passado conseguiu ficar pior neste ano. E se segue “avaliando” contratações;
– Achei simples e bonita a nova camisa, com o velho escudo dos anos 80 e 90. Mas estas estreias não tem dado sorte. Deveriam ter deixado ela para Caxias;
– Quarto zagueiro titular, lateral esquerdo titular; ponta direita titular e centroavante titular;
– E precisamos dum Presidente que, ao menos uma vez na vida, pare de tapal o sol com a peneira. Que pare de rifar campeonatos antes que rife a própria história do Internacional!
PERGUNTINHA
Até quando vão brincar com fogo?
Minha fé inabalável ainda paira sob o Abelão. Vamos todos nos agarrar nos fios de esperança.
PACHECO