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Há muito tempo que o futebol europeu olha para os sul-americanos buscando jogadores. No início, jogadores que poderiam fazer diferença em seus times, depois, jogadores que pudessem se adaptar ao seu estilo de jogo. Portugal foi quem viu esse movimento antes, e buscou jogadores jovens para moldá-los, e depois revender ao times maiores da Espanha e Inglaterra.

Embora sempre olhassem com olhos de admiração, a ideia era de suplantar o futebol imprevisível, do jogador diferenciado, do inesperado, usando a questão tática.

E conseguiram. A compactação veio para impedir a sequência de dribles, a linha de 5 para impedir que laterais habilidosos ocupassem o ataque quando os pontas caíssem para o meio, e pontas marcadores impediam a própria progressão dos laterais.

O futebol sul-americano assistiu, e insistiu. Sempre manteve a mesma ideia de bons jogadores capazes de suplantar seleções bem treinadas taticamente, e pouca importância deu para as modificações europeias. Pior, seguiu exportando jogadores e vendo sua transformação, e os trazendo de volta com a mesma formação tática dos clubes que jogam; e aí a seleção começou a sucumbir.

Nossos olhares para o futebol europeu passaram a ser de admiração, principalmente encabeçada por Tite, um grande observador dos times europeus, e que criou a ideia de que os jogadores só devem jogar como jogam em seus times, já que é pouco tempo para treinar na seleção.

Daí a crescente ideia de que nossos jogadores que se destacam nos times europeus jogam sem vontade pela seleção brasileira, pois não rendem tanto, e culminou com um artigo de um jornalista dizendo que o lateral direito Wesley foi o único jogador que deu sangue pela seleção porque ele não joga no futebol europeu.

A obtusidade é tão grande que esqueceu que é treinado por um ex-jogador que teve quase toda a carreira na Europa.

A seleção tem grandes jogadores, destaques em seus times. Vini Jr., Rodrygo, Raphinha, Gabriel, o próprio Abner é um bom lateral (não foi convocado), Gerson e Arana (jogam ainda no Brasil) e outros compõem um bom grupo.

Mas Dorival recém descobriu que esses jogadores podem jogar em posições diferentes da que jogavam em seus times, e só descobriu isso com Raphinha, o trazendo para o meio, tirando das pontas onde joga no Barcelona.

O futebol sul-americano sempre se fundou em bons jogadores e esqueceu a movimentação. Tite sempre buscou entregar a bola para o craque da seleção para que resolvesse qualquer parada, e Dorival não faz nem um, nem outro. Ou pior, quer entregar a bola para um resolver, mas não sabe para quem.

Quando Raphinha passou a jogar pelo meio, saindo das posições estáticas que Dorival gosta, os espaços se abriram, mas não há quem os ocupe, pois temos dois pontas colados nas laterais, e laterais que não jogam por dentro, e volantes, tirando Gerson, que são essencialmente defensivos, pouco chegam, pouco chutam.

A matriz da mudança da seleção é fazer com que esses jogadores não repitam exclusivamente a forma que jogam em seus times. Eles jogam assim porque há defensores que tem melhor consciência tática que os brasileiros, e cumprem melhor as orientações de seus treinadores, e Dorival não tem estofo para isso, aliás, não vejo um treinador brasileiro com estofo para isso.

Aí o que vemos na seleção é um time desconectado, que busca entregar a bola para algum craque de um time europeu, e esperar que ele resolva, até porque quando um desses recebe a bola, busca resolver o jogo sozinho também, e por vezes resolve. O que Wesley fez de diferente, e Matheus Cunha também, foi se apresentar para receber a bola, e aí o jogo fluiu.

Não adianta muita coisa com alguns jogadores em campo, mas a movimentação, junto com o talento excepcional de alguns jogadores brasileiros, podem fazer com quem ganhamos alguma coisa, desde que orientados por um bom treinador.

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