UM TIME SEM SANGUE | BLOG VERMELHO : Sport Club Internacional

UM TIME SEM SANGUE

Sou do tempo do toca-discos, o da minha avó era um móvel, e o toca-discos ficava protegido por uma porta de abertura frontal. Tínhamos, também, o toca-discos portátil, como uma maletinha de plástico, que abria oferecendo uma caixinha de som e o lugar onde colocava-se o vinil. A Disney tinha livretos com as histórias famosas da época, acompanhadas dos disquinhos de vinil com a narrativa. Um espetáculo. Eu era fã dos músicos de Bremen (nem sei se é assim que se escreve).

A diversão era colocar em 45 rpm os disquinhos. Sim, os toca-discos tinham um botãozinho que colocava a rotação em 45 ou 33 rpm. O normal era 33. Depois vieram os disquinhos da minha mãe, Cely Campello e o indefectível banho de lua, e Ronnie Von em Aruanda.

Colocar esses disquinhos em 45 rpm era hilário.

Hoje tenho duas preciosidades em 45 rpm, um EP dos Talking Heads, com Lady don´t mind, versão longa, e outro do Smiths, com How soon is now em duas versões.

Tudo isso pra dizer que time de futebol não tem botão de 45 rpm. Quando começa em 33 rotações, é muito difícil, durante o jogo, mudar para 45, e, a tendência é, quando as pilhas ficam mais fracas, diminuir a rotação, e não aumentar.

Pois o time do Inter é orientado a jogar em 33 rpm, ou menos. No módulo lento, com passes laterais, sem objetividade. Na primeira dificuldade, ou adversário postado há dois passos de distância, um recuo que pode ir até o goleiro. Se, da troca de passes sem objetividade, surgir uma infiltração, em cada três, um passe é tentado, normalmente por quem não tem qualidade pra isso.

E assim o time vai carregando o resultado, empurrando o placar enquanto o tempo passa.

Mas quando vem o revés, treinador e direção querem que mude a chave, que a intensidade apareça, que o jogo modorrento e improdutivo seja revestido de velocidade e ousadia, só que normalmente é tarde. Foi contra o Fluminense, foi contra o Fortaleza, foi contra o Goiás. Em um, deu certo, em todos os outros, não.

O time do Inter entra em campo para administrar o 0x0, especular um gol, impedir o adversário de jogar, e, se der, fazer um golzinho, para recuar ainda mais, e administrar ainda mais o belíssimo resultado de vitória, ou, como se viu na Libertadores, contra o Flamengo, administrar uma derrota por placar mínimo.

Podem bradar o contrário nas entrevistas, dizer que o Inter é grande, que é time que faz gols, mas não é nada disso que se vê em campo, senão um time que quer controlar o jogo no campo de defesa, com passes entre os zagueiros e laterais e goleiro, esperando a estrela de Guerrero ou Nico, ou uma falta que ronde a área.

Aí fica difícil pensar em coisa maior, nem em resultados, nem em futebol mais vistoso. Odair conseguiu castrar Nonato e vai afundar Nico. Esse último o alvo dos colorados, porque erra os gols que ele mesmo cria. Nico está sendo cobrado por gols, em vez de o time ser cobrado por gols. Pouco me importa se Nico não faz gols, se Moledo, Edenilson, Guerrero, Patrick e D’Ale fazem. Nico, pelo menos, cria a maioria de suas chances perdidas. O problema é que sem Nico, o time não tem feito gols, nem criado chances.

E não vamos esquecer que Odair treinou um só esquema, com um centroavante de referência, apostando em Trellez, e, na reiterada inoperância da contratação, mudou o esquema pra que Pedro Lucas não jogasse, e viu nos 15 minutos contra o Fortaleza a solução mágica que deu errado contra o Goiás. A vergonha não está no campo, mas na casamata, na direção de um clube que enaltece placar mínimo, ainda que contrário. Enquanto isso não mudar, o time segue sem sangue.

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Author: Mauro loch

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